Capítulo 1
A primeira coisa que Geto Suguru aprendeu sobre engolir maldições foi que o gosto nunca melhora. A segunda, que ninguém pergunta.
Naquela noite de agosto, sentado na escada externa do dormitório da Escola Técnica de Jujutsu Metropolitana de Tóquio, ele segurava a esfera escura entre o polegar e o indicador e esperava a coragem chegar. A maldição tinha sido de segundo grau, um negócio pegajoso que se escondia num túnel de trem desativado em Saitama e fazia as pessoas ouvirem passos atrás de si até perderem o juízo. Exorcizar tinha levado dez minutos. Engolir ia levar dois segundos. Os dois segundos eram sempre a parte pior.
As cigarras gritavam nas árvores do pátio como se alguém estivesse pagando por isso. O ar estava tão quente que grudava.
Geto fechou os olhos, colocou a esfera na boca e engoliu.
Pano de chão. Pano de chão usado para limpar vômito, esquecido num balde durante uma semana. Ele já tinha tentado encontrar outra comparação, por puro tédio, e nenhuma chegava perto. O estômago se contraiu, a garganta fechou, e ele apertou a borda do degrau até sentir o concreto morder a palma da mão.
— Você faz uma cara horrível quando faz isso.
Geto abriu os olhos. Gojo Satoru estava parado no pé da escada, de regata branca e calça do uniforme, com um saco plástico de loja de conveniência numa das mãos e os óculos escuros empurrados para cima do cabelo. Os olhos dele, sem nada na frente, eram de um azul que não deveria existir fora de um céu de inverno.
— Há quanto tempo você está aí? — perguntou Geto.
— Tempo suficiente. — Gojo subiu os degraus de dois em dois e sentou ao lado dele, perto demais, como sempre. — Trouxe sorvete. O de melancia acabou, então peguei o de refrigerante. Ninguém merece o de refrigerante, mas é o que tem.
Ele abriu o saco e estendeu um picolé azul. Geto pegou, mais para ter alguma coisa para tirar o gosto da boca do que por vontade.
— Obrigado.
— De nada. — Gojo rasgou a embalagem do próprio picolé com os dentes. — Então. Saitama.
— Saitama.
— Foi fácil?
— Foi.
— Você está mentindo.
Geto mordeu o sorvete. O gelo doeu nos dentes e ele gostou da dor, porque era uma dor limpa, simples, que vinha de fora.
— A maldição foi fácil — disse. — O resto que não.
Gojo esperou. Era uma coisa nova nele, essa capacidade de esperar. Um ano antes, teria enchido o silêncio com piadas, com reclamações, com qualquer coisa que impedisse a conversa de ficar séria. Mas alguma coisa tinha mudado desde o verão anterior, desde o dia em que ele voltou da missão do Recipiente do Plasma Estelar com a camisa encharcada de sangue que era quase todo dele e um brilho nos olhos que Geto ainda não sabia nomear. Desde aquele dia, Gojo era o mais forte, sozinho, num degrau aonde ninguém mais conseguia subir.
E Geto estava aprendendo, devagar, a ficar no degrau de baixo.
— Tinha uma mulher na estação — continuou Geto. — Morava perto do túnel. A maldição estava lá havia meses e ela tinha ouvido os passos o tempo todo. Ninguém acreditou nela. O marido a internou. Quando eu terminei o serviço, ela estava sentada no banco da plataforma com os papéis da alta numa pasta, e me perguntou se eu era médico.
— E o que você disse?
— Que eu era da companhia ferroviária. Que tínhamos consertado um problema na fiação. — Geto girou o palito do picolé entre os dedos. — Ela chorou. Disse que sabia que não estava louca. Me agradeceu umas cinco vezes. E aí o marido chegou para buscá-la, e ele olhou para ela como se ela ainda estivesse doente, como se aquele agradecimento fosse mais um sintoma.
Gojo ficou quieto. O sorvete dele pingava, uma gota azul atrás da outra, no degrau entre os pés.
— Os não feiticeiros criam as maldições — disse Geto, e a frase saiu mais dura do que ele queria. — Todo o medo deles, toda a raiva, toda a sujeira, vira essas coisas. E aí a gente sai à noite, limpa a sujeira, engole o que sobrou, e eles nem sabem que a gente existe. E quando sabem, olham para a gente do jeito que aquele homem olhou para a esposa.
— Suguru.
— Eu sei. Eu sei o que eu sempre digo. Que os fortes protegem os fracos, que esse é o sentido do jujutsu. Eu ainda acredito nisso. Acho que acredito.
Ele não falou do Haibara. Não precisava. O nome estava ali, na escada, entre os dois, desde o mês anterior. Um garoto de dezessete anos que sorria demais e comia demais e chamava Geto de "veterano" com um respeito que ele não sabia se merecia. Uma missão classificada errado. Um corpo debaixo de um lençol na mesa do necrotério, Nanami de pé ao lado, dizendo com uma voz plana que deixaria tudo para Gojo daqui para a frente. O Gojo nem estava lá. Estava viajando, sozinho, porque sozinho dava conta de tudo.
— Você está mais magro — disse Gojo de repente.
Geto riu pelo nariz.
— Que observação aleatória.
— Não é aleatória. Os Seis Olhos veem energia amaldiçoada, mas eu também tenho os olhos normais, sabia? Você está mais magro. Não come direito. Fica acordado até tarde. A Shoko disse que você nem foi fumar com ela essa semana, e você sempre vai fumar com ela.
— Você anda conversando com a Shoko sobre mim?
— Ando. — Gojo deu de ombros. — Alguém precisa.
Geto não soube o que responder. Olhou para o pátio, para as árvores escuras, para a luz amarela do poste onde uma nuvem de mariposas girava sem rumo. Em algum lugar, um sino de vento tilintava.
— Você está ocupado demais para se preocupar comigo — disse por fim. — Eles te mandam para todo canto agora. Hokkaido, Osaka, Kyushu. Você é o único que eles precisam.
Ele não tinha planejado deixar a amargura escapar. Mas ela escapou, e Gojo ouviu. Geto viu que ouviu, porque o rosto dele mudou. A boca, sempre pronta para uma provocação, ficou reta.
— É isso que você acha? — perguntou Gojo.
— É o que eles acham.
— Eu não perguntei deles.
Gojo jogou o palito do sorvete no saco plástico. Depois, devagar, como se estivesse desmontando uma bomba, estendeu a mão aberta entre os dois, com a palma para cima.
Geto conhecia aquela mão. Já tinha apertado ela mil vezes, em brincadeira, em briga, em despedida rápida antes de missões. Mas desde o verão passado havia sempre alguma coisa ali. O Infinito. Uma distância invisível, milimétrica, que fazia qualquer toque parar antes de chegar à pele. Gojo deixava a técnica ligada o tempo todo agora. Dormindo, comendo, rindo. Era o que o tornava intocável. Era, Geto suspeitava, também o que o tornava sozinho.
— Encosta — disse Gojo.
— Satoru…
— Encosta, Suguru.
Geto ergueu a mão. Hesitou. Pousou os dedos sobre a palma dele, esperando a resistência familiar, aquele espaço que sempre sobrava.
Não havia espaço nenhum.
A pele de Gojo estava quente, um pouco úmida do calor e do sorvete derretido. Real. Geto sentiu as linhas da palma dele, o calo na base do dedo médio, a pulsação acelerada no pulso. Por um segundo, esqueceu completamente o gosto de pano de chão na boca.
— Você desligou — disse Geto, e a voz saiu mais baixa do que esperava.
— Só para você. — Gojo não olhava para ele. Olhava para as mãos, para o ponto exato onde elas se tocavam, com uma atenção que costumava reservar para técnicas difíceis. — Eles podem me mandar para onde quiserem. Eu posso ser o mais forte do mundo. Mas eu não sou o mais forte sozinho, entendeu? A gente é. Nós dois. Foi o que a gente sempre disse.
Geto quis acreditar. Quis tanto que doeu no mesmo lugar onde doía a maldição recém-engolida, um pouco abaixo das costelas. Fechou os dedos em volta da mão de Gojo e apertou, e Gojo apertou de volta, forte, como alguém que se segura na borda de um telhado.
— Tá bom — disse Geto.
— Tá bom mesmo?
— Tá.
Não estava. Ele sabia, lá no fundo, que uma mão quente numa noite de agosto não ia apagar o rosto do marido na plataforma, nem o lençol sobre o Haibara, nem o gosto que voltaria amanhã, e depois, e no dia seguinte. Mas naquele momento havia só as cigarras, a luz do poste, o sorvete derretido grudando nos dedos e Gojo Satoru sem nenhuma barreira entre eles.
Ficaram assim por muito tempo. Gojo começou a reclamar do sabor do picolé, do calor, do Yaga, da missão em Kyushu que tinha sido chata demais para alguém com o talento dele. Geto ouvia, ria nos lugares certos, e não soltava a mão.
Mais tarde, ele pensaria naquela noite muitas vezes. Em como teria sido fácil dizer alguma coisa a mais. Em como Gojo tinha baixado a guarda inteira, de propósito, e esperado.
Mas naquela hora, sentado na escada, ele só encostou a cabeça no ombro do amigo e fechou os olhos, e deixou que o verão continuasse mais um pouco.