Capítulo 1
O terceiro raio da noite caiu a quatro metros do alvo e a dois de Xaden Riorson, e ele nem piscou. Violet Sorrengail, por outro lado, teve vontade de vomitar.
— De novo — disse ele.
— Você está maluco. — Ela abaixou os braços. A chuva escorria pelo rosto dela, entrava no colarinho do uniforme, pesava na trança que ela tinha feito apertada demais e que agora puxava o couro cabeludo. — Eu quase te acertei.
— Quase.
— Isso não é argumento, Riorson.
Ele estava parado ao lado da rocha que tinha escolhido como alvo, uma pedra cinzenta do tamanho de uma carroça, encravada na encosta acima do campo de voo de Basgiath. Atrás dele, o vale descia escuro até as luzes distantes da escola. Lá embaixo, todo mundo estava dormindo, ou fingindo dormir, ou fazendo qualquer coisa que não fosse ficar no alto de uma montanha durante uma tempestade de verão, esperando ser atingido por uma cadete do primeiro ano que ainda não controlava o próprio sinete.
As sombras em volta de Xaden se mexiam devagar, como fumaça presa num vidro. Ele cruzou os braços.
— Você está mirando em mim — disse ele.
— Eu estou mirando na pedra.
— Não. Você está mirando em qualquer lugar que não seja eu, e é por isso que erra. Seu corpo está desviando. Cada vez que você puxa, metade da sua cabeça está calculando onde eu estou para garantir que o raio não chegue perto.
Violet abriu a boca para responder e não encontrou nada, porque era verdade. Era irritante o quanto ele acertava sobre ela. Era irritante tudo nele, na verdade: o jeito como ficava parado na chuva sem se encolher, como se a água tivesse pedido licença para molhar a pele dele; a cicatriz na sobrancelha; as marcas da relíquia da rebelião subindo pelo pescoço, escuras e enroscadas, que a luz dos relâmpagos tornava ainda mais nítidas.
*Ele tem razão*, disse Tairn, a voz grave ecoando dentro da cabeça dela, cheia daquela impaciência antiga que fazia Violet se sentir com cinco anos de idade. *Você está segurando.*
*Ninguém pediu sua opinião.*
*Você pediu no instante em que me escolheu. Ou eu te escolhi. Dá no mesmo.*
Ela olhou por cima do ombro. Tairn estava pousado mais acima, numa saliência da encosta, enorme e negro, as asas meio abertas para proteger alguma coisa debaixo delas. Andarna, provavelmente, encolhida e reclamando do frio. Ao lado dele, Sgaeyl observava a cena com olhos semicerrados, a cabeça azul-marinho inclinada como quem assiste a uma peça de teatro particularmente chata.
— Por que estamos fazendo isso aqui? — perguntou Violet, virando-se de novo para Xaden. — O professor Carr tem um campo de treinamento inteiro. Com alvos de verdade. Sem gente em pé do lado deles.
— Porque no campo do Carr você erra e ninguém se machuca. E você sabe disso, e então tenta com vontade. — Xaden deu dois passos em direção a ela, e a lama estalou sob as botas dele. — Numa batalha, não vai ter campo vazio, Violence. Vai ter gente sua por todo lado. Cavaleiros, dragões, infantaria. Se você só consegue usar o sinete quando não tem ninguém por perto, você não tem um sinete. Tem um truque de festa.
Ela odiava quando ele a chamava assim. Odiava mais ainda o calor que subia pelo estômago toda vez que ele chamava.
— E se eu te acertar? — perguntou ela. — De verdade?
— Aí você vai ter um problema com a Sgaeyl.
— Isso não é engraçado.
— Não era para ser.
Um trovão rolou pelo vale, tão alto que Violet sentiu nos dentes. A energia estava ali, logo abaixo da pele, zumbindo, pedindo para sair. Desde a primeira vez, naquela noite em que o céu inteiro se acendeu sobre Basgiath sem que ela tivesse pedido nada, ela tinha aprendido que o poder de Tairn não esperava permissão. Ele vinha como uma enchente, e o máximo que ela conseguia fazer era decidir para que lado a água ia correr.
Na maior parte das vezes, nem isso.
— Minha mãe dobra o vento — disse Violet de repente, sem saber por quê. — Você sabia? Ela consegue empurrar uma tempestade de um vale para outro. Quando eu era pequena, ficava na janela olhando ela treinar no pátio e achava que era a coisa mais bonita do mundo. Depois cresci e percebi que ela nunca errava. Nunca. E eu passei a vida inteira sabendo que nunca ia ser assim.
Xaden ficou em silêncio. A chuva batia entre eles.
— Eu não quero ser ela — continuou Violet. — Mas também não quero ser a filha que queimou o próprio esquadrão porque não sabia mirar.
— Você não vai queimar ninguém.
— Como você pode ter certeza?
Ele não respondeu com palavras. Voltou para perto da pedra, encostou as costas nela e abriu os braços, devagar, como alguém que se oferece para um abraço. Ou para um pelotão de fuzilamento.
— Porque eu vou ficar bem aqui — disse ele. — E você vai acertar a pedra.
— Xaden.
— Você sabe exatamente onde eu estou. Você sempre sabe. Usa isso. Para de fugir de mim e mira em mim. Depois, no último segundo, desvia meio metro para a esquerda.
— Isso é insano.
— É o único jeito que eu conheço de te ensinar a confiar na sua própria mão.
*Ele está apostando a vida dele na sua mira*, disse Tairn, e pela primeira vez a voz dele não tinha desdém. Tinha alguma coisa parecida com respeito. *E a Sgaeyl está deixando. Pense no que isso significa.*
Violet olhou para a dragoa azul na encosta. Sgaeyl não tinha se mexido. Não estava tensa, não estava pronta para mergulhar. Estava apenas olhando, com a paciência de quem já viu séculos de cadetes errando e acertando.
Ela fechou os olhos.
Encontrou o fio. Era assim que pensava na ligação com Tairn: um fio de cobre quente que saía do peito dela e subia até ele, e por onde descia uma energia que não cabia num corpo humano. Deixou a energia vir. Sentiu os braços formigarem, os dedos esquentarem, o cabelo molhado se arrepiar na nuca. A tempestade em cima dela respondeu, uma pressão crescendo nas nuvens, o ar ficando espesso e metálico.
E, pela primeira vez, ela não procurou Xaden para evitá-lo. Procurou para encontrá-lo.
Lá estava ele. Não com os olhos, que continuavam fechados, mas com alguma coisa por baixo da pele, um sentido que ela não sabia que tinha. As sombras dele tinham um peso próprio, uma frieza que se destacava no meio do calor da tempestade. Ela o conhecia. Conhecia o jeito como ele respirava antes de uma luta, o jeito como mexia o maxilar quando estava irritado, o jeito como dizia o nome dela, o verdadeiro, nas raras vezes em que dizia.
Ela mirou nele. Com tudo.
E no último instante, quando a energia já estava rasgando o caminho de dentro para fora, quando não havia mais volta, ela moveu a mão meio palmo para a esquerda.
O raio caiu.
O mundo virou branco. O estrondo jogou Violet de joelhos na lama, e ela sentiu o tranco no joelho direito, aquela pontada familiar que avisava que amanhã ia precisar da faixa mais apertada. Durante alguns segundos, não ouviu nada além de um zumbido agudo. Não viu nada além de manchas roxas dançando.
Depois o cheiro chegou. Pedra queimada. Ozônio. Chuva sobre rocha quente.
Ela piscou até a visão voltar.
A pedra estava rachada ao meio. Uma fenda escura, fumegante, de cima a baixo, a menos de um palmo do ombro esquerdo de Xaden. Ele continuava encostado ali, os braços abertos, o rosto molhado iluminado pelo vapor que subia da rocha.
E estava sorrindo.
O sorriso arrogante que ele usava no pátio quando derrubava alguém no tatame tinha sumido. Este era menor, quase incrédulo, que Violet nunca tinha visto antes e que, ela percebeu com um aperto no peito, talvez nunca mais visse de novo se não prestasse muita atenção agora.
— Viu? — disse ele.
Ela tentou se levantar. O joelho protestou. Antes que ela conseguisse, ele já estava ali, ajoelhado na lama na frente dela, as mãos segurando os braços dela com uma firmeza que contrastava com o cuidado com que examinava seu rosto.
— Você está bem?
— Eu quase te matei.
— Você acertou exatamente onde quis.
— Meio palmo, Xaden.
— Meio palmo é tudo de que um cavaleiro precisa. — Ele tirou uma mecha molhada do rosto dela e a prendeu atrás da orelha. A mão demorou ali um pouco mais do que precisava. — Você me encontrou. Eu senti.
Violet não soube o que dizer. Ficaram ajoelhados na lama, a chuva diminuindo, os trovões se afastando para o leste. Lá em cima, Tairn bufou, uma nuvem de vapor saindo das narinas.
*Aceitável*, disse ele. *Para uma primeira vez.*
*Isso foi um elogio?*
*Não abuse.*
Ela riu. Uma risada nervosa, trêmula, que se desfez no meio. Xaden encostou a testa na dela, e as sombras dele se fecharam em volta dos dois como uma capa, bloqueando o vento.
— Amanhã — disse ele — a gente tenta com dois alvos.
— Eu te odeio.
— Mentirosa.
Ela não discutiu. Ficou ali, sentindo o coração dele bater rápido demais para alguém que, segundos antes, parecia tão calmo, e entendeu que ele também tinha ficado com medo. Que tinha ficado ali assim mesmo.
Desceram a montanha juntos, os dragões voando baixo acima deles, e a pedra rachada continuou fumegando na encosta até o sol nascer.