Capítulo 1
Fazia três meses que Feyre não conseguia pintar nada além de preto. Ela tinha enchido duas telas inteiras com camadas e camadas de tinta escura, uma por cima da outra, até o tecido ficar duro como couro, e nenhuma delas mostrava o que ela queria mostrar.
Naquela noite, ela desistiu da terceira antes mesmo de começar. Largou o pincel no pote de água, vestiu o casaco por cima da camisola e subiu a escada estreita que levava ao telhado da casa da cidade. Velaris dormia lá embaixo. As luzes do Arco-Íris ainda piscavam perto do rio, e o Sidra corria escuro e lento, levando no dorso o reflexo das estrelas.
Ela sentou na beirada, com os pés pendurados sobre a rua, e respirou o ar frio até o peito doer um pouco menos.
Não precisou se virar para saber que ele tinha chegado. O laço entre os dois se mexeu primeiro, como uma corda que alguém puxa com cuidado do outro lado.
— Você podia ter me acordado — disse Rhysand.
— Você estava dormindo pela primeira vez em uma semana.
— E você não estava dormindo pela primeira vez em uma semana. Acho que a gente empata.
Ele se sentou ao lado dela, sem pressa. Estava descalço, de calça e camisa aberta no pescoço, o cabelo bagunçado de um jeito que nenhum dos Grão-Senhores de Prythian jamais veria. Feyre gostava disso: de ser a única a conhecer aquela versão dele, a que tropeçava na própria manta e resmungava antes do café.
— Mais uma tela preta? — ele perguntou.
— Como você sabe?
Rhys ergueu a mão dela e virou a palma para cima. Havia uma mancha escura entre o polegar e o indicador.
— Deduzi com meus poderes extraordinários.
Ela riu, e o riso saiu torto, meio engasgado. Ele não soltou a mão.
— Eu fecho os olhos e vejo cores — Feyre disse, depois de um tempo. — Vejo tudo. O céu de Velaris, as estrelas caindo, o rosto da Mor quando ela ri, o jeito que o Cassian come como se alguém fosse roubar o prato dele. Mas quando eu pego o pincel, só sai a guerra. Sai Hybern. Sai aquele campo.
Ele ficou em silêncio. Não era um silêncio vazio. Rhys tinha esse dom de ouvir com o corpo inteiro, como se as palavras dela fossem algo que ele precisasse guardar em lugar seguro.
— Quando Amarantha caiu — ele disse por fim —, eu passei quase um ano sem abrir as asas.
Feyre virou o rosto para ele.
— Eu sei que você as escondia Sob a Montanha.
— Escondia lá porque ela teria pregado as duas na parede do salão do trono, como troféu. — O canto da boca dele subiu, e desceu de novo. — Mas depois, quando ela já tinha morrido, eu continuei escondendo. Voltei para cá, para a minha casa, para a minha cidade, e não conseguia voar. Eu subia na Casa do Vento, ficava parado na varanda e não conseguia. Era como se o corpo ainda achasse que alguém estava olhando.
— E o que mudou?
— Nada de grandioso. — Ele encolheu os ombros. — Uma manhã o Az estava lá em cima comigo. Ele não disse nada, o Azriel quase nunca diz. Só abriu as asas dele e ficou do meu lado, esperando. E eu pensei: se ele consegue, com as cicatrizes que tem, eu também consigo. Mas demorou. Demorou muito mais do que eu queria admitir.
Feyre olhou para as próprias mãos. A mancha preta. As unhas roídas, um hábito que ela tinha perdido aos quinze anos e que voltara depois da guerra, sem pedir licença.
— Então eu só preciso esperar.
— Você precisa fazer o que quiser fazer — disse Rhys. — Inclusive pintar telas pretas pelo resto da vida, se for isso que sair. Eu penduro todas na sala. Digo aos visitantes que é uma fase muito sofisticada da Grã-Senhora.
— Você é ridículo.
— Sou seu.
Ela encostou a cabeça no ombro dele. Lá embaixo, um gato atravessou a rua e sumiu atrás de uma floreira. O vento trouxe cheiro de sal e de pão começando a assar em alguma padaria da margem do rio.
Foi então que ela teve a ideia. Uma ideia pequena, quase boba.
— Abre as asas — ela pediu.
Rhys inclinou a cabeça.
— Aqui?
— Aqui. Agora. Por favor.
Ele não perguntou por quê. Levantou-se, deu dois passos para trás, até o meio do telhado, e as sombras se juntaram em volta das costas dele como fumaça. Quando se desfizeram, as asas estavam lá: enormes, escuras, com aquele brilho quase violeta nas bordas onde a luz da lua batia. As garras no topo de cada uma reluziram. Ele as abriu devagar, por inteiro, e a envergadura cobriu metade do telhado.
Feyre já tinha visto aquelas asas mil vezes. Tinha voado nelas, dormido embaixo delas, chorado contra elas. Mas naquela noite ela olhou como olharia para um modelo, com a cabeça meio inclinada, medindo o ângulo das articulações e a forma como a membrana ficava mais fina perto das pontas, quase transparente.
— Fica parado — ela disse.
— Senhora, eu nasci para isso.
— Rhys.
— Parado. Juro.
Ela desceu correndo. Os degraus rangeram, e em algum lugar da casa Elain resmungou no sono. Feyre voltou com o cavalete debaixo de um braço, a caixa de tintas debaixo do outro e uma tela pequena, branca, presa com os dentes.
Montou tudo meio torto, porque o telhado não era plano e o vento insistia em empurrar o cavalete. Rhys ficou no meio, as asas abertas, e não reclamou nem quando ela mandou que ele levantasse o queixo, nem quando mandou abaixar, nem quando pediu que ele virasse um pouco a asa esquerda para pegar mais luz.
Ela misturou o primeiro tom. Não era preto. Era azul-noite, o azul exato do céu de Velaris às três da manhã, com uma ponta de violeta. Passou o pincel na tela e a mão tremeu.
— Está tudo bem — disse Rhys, baixinho, pelo laço. Ela sentiu a voz dele mais dentro da cabeça do que nos ouvidos. — Eu estou aqui. Ninguém está olhando além de mim.
Ela respirou fundo e continuou.
Pintou o contorno das asas primeiro, depois o corpo dele, só uma silhueta, sem rosto. Pintou o telhado, as chaminés tortas da casa vizinha, a curva do rio. Quando chegou nas estrelas, parou. Por um segundo, a imagem antiga quis subir: o céu de guerra, vermelho e cinza, as asas quebradas dos illyrianos caídos no campo, o grito que ela ainda ouvia em alguns pesadelos.
Ela fechou os olhos.
Quando abriu, Rhys tinha mudado de posição. Sem que ela pedisse, ele havia erguido uma das mãos, e na palma dele brilhava uma estrela pequena, pálida e redonda, como as que caíam em Velaris uma vez por ano, na noite da Queda das Estrelas. Ele a soltou, e ela flutuou devagar até ficar perto do rosto de Feyre, lançando uma luz branca sobre a tela.
— Trapaça — ela disse.
— Iluminação adequada. Todo artista precisa.
Ela riu de novo, e dessa vez o riso saiu inteiro.
Pintou a estrela. Pintou outra, e mais outra, pontos de branco e prata espalhados pelo azul. Pintou até as costas doerem e os dedos ficarem dormentes de frio, até o céu atrás de Rhys começar a clarear nas bordas e a estrela que ele tinha feito se apagar sozinha, como uma vela que chegou ao fim.
Quando terminou, o sol estava nascendo por trás das montanhas. A tela não era perfeita. A perspectiva do telhado estava errada, e uma das asas tinha ficado maior que a outra. Mas havia cor nela. Havia azul, e violeta, e prata, e um pedaço de dourado no canto, onde o amanhecer tinha encostado.
Rhys fechou as asas devagar e veio ver. Ficou atrás dela, com o queixo apoiado no topo da cabeça de Feyre, e não disse nada por um longo tempo.
— Uma asa está maior que a outra — ela avisou.
— É a minha asa boa.
— Você não tem asa boa.
— Agora tenho. Está na tela.
Ela se recostou nele. Os braços dele a envolveram por trás, e as asas, mesmo fechadas, se curvaram um pouco para os lados, protegendo os dois do vento da manhã.
— Não sei se amanhã vai sair preto de novo — Feyre disse.
— Pode sair.
— E se sair?
— Aí eu subo aqui com você e abro as asas outra vez. — Ele beijou o cabelo dela, que cheirava a terebintina. — E na noite seguinte também. Eu tenho uns quinhentos anos sobrando, mais ou menos. Dá para muitas noites.
Lá embaixo, a cidade começava a acordar. Uma porta se abriu, alguém chamou um nome, o primeiro barco desceu o Sidra com as velas ainda frouxas. Feyre ficou olhando a tela até a tinta começar a secar nas bordas, e só então deixou que Rhys a levasse para dentro, para a cama, para três horas de sono sem sonhos.
A tela ficou no telhado até o meio da tarde. Foi Cassian quem a encontrou, quando pousou ali para roubar café da cozinha. Ele a levou para baixo com um cuidado que ninguém acreditaria se visse, e a pendurou na sala, bem no meio da parede onde antes não havia nada.
Quando Feyre acordou e desceu, encontrou um bilhete preso na moldura, com a letra grande e torta do illyriano: "A asa da esquerda está maior. Ficou bonito mesmo assim."