Quarta-feira é dia da cozinha

Ataque dos Titãs · fanfic · Hurt/Comfort · 2026

1 capítulo1.506 palavrasPT
Capítulo 1 de 1

Sobre a trama

Depois da 57ª expedição, Levi volta ao castelo vazio da Tropa de Exploração e encontra a escala de faxina que Petra deixou na porta. É quarta-feira, dia de Oluo, e Eren não consegue dormir.

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Cenário canônicoMelancólicoMentor/AlunoPerdaCulpaFound Family (família escolhida)Mini

Capítulo 1

Petra deixara a escala da faxina pregada na porta da despensa, com a letra redonda que ela usava para tudo, até para relatório de baixas. Levi passou três dias sem olhar para aquela folha, e na quarta noite parou na frente dela com um balde na mão e o tornozelo latejando dentro da bota. Segunda: Eld, corredor de cima. Terça: Gunther, estábulo. Quarta: Oluo, cozinha, e embaixo, sublinhado duas vezes, "e desta vez a cozinha INTEIRA, Oluo". Quinta: Petra, janelas. Sexta: Eren, porão, com um pontinho de interrogação do lado, como se ela não tivesse certeza se o garoto ainda estaria vivo até lá. Era quarta-feira. O castelo velho que servia de quartel ficava quieto demais depois que escurecia. Antes, sempre tinha alguém fazendo barulho: Oluo contando vantagem e mordendo a língua no meio da frase, Gunther afiando lâmina, Eld rindo baixo de alguma coisa que só ele achava graça. Agora era só o vento passando pelas frestas das pedras e, de vez em quando, um cavalo batendo o casco lá fora. Levi molhou o pano no balde, torceu e começou pela bancada. O Erwin tinha dito para ele descansar. A médica da Tropa de Exploração tinha dito para ele não apoiar o pé por duas semanas. Hange tinha dito alguma coisa comprida sobre ligamentos que ele não escutou. Levi tinha concordado com todo mundo e voltado para o castelo, porque era ali que estavam as coisas deles, e alguém precisava decidir o que fazer com as coisas deles. A cozinha estava suja do jeito que fica uma cozinha onde ninguém cozinha há quatro dias. Pó na mesa. Uma caneca esquecida na beira da pia, com um anel escuro de chá seco no fundo. Levi pegou a caneca e ficou olhando. Era a de Oluo, a lascada na borda, que ele se recusava a jogar fora porque dizia que dava sorte. Levi lavou a caneca. Esfregou o anel de chá até sumir. Secou, virou de boca para baixo no escorredor, junto das outras. Atrás dele, a escada do porão rangeu. — Eu mandei você dormir — disse Levi, sem se virar. — Eu tentei, senhor. Eren parou no último degrau, de camisa e sem casaco, com o cabelo amassado de um lado. Ainda dormia no porão, por ordem do comando. Ainda tinha as marcas vermelhas no rosto, embaixo dos olhos, que apareciam depois de sair de dentro do titã e demoravam a sumir. Parecia ter quinze anos, o que ele tinha. — Ouvi barulho — disse Eren. — Achei que... Não terminou a frase. Levi sabia o que ele tinha achado. Durante um segundo, ouvindo passos na cozinha à noite, o garoto tinha pensado que era a Petra. Ou o Gunther, que às vezes descia para roubar pão. O corpo esquece mais devagar do que a cabeça. — Sou só eu — disse Levi. — Sim, senhor. Eren continuou parado no degrau. Levi voltou para a bancada, passou o pano, enxaguou, passou de novo. Ouviu o garoto respirar fundo umas três vezes, juntando coragem, e se preparou. — Capitão, eu queria dizer que... — Não. — Mas foi culpa minha. Se eu tivesse me transformado logo, quando o senhor... — Eren. — Levi colocou o pano na bancada. — Eu disse que não. O garoto se calou. Levi olhou para ele, para a cara vermelha e as mãos fechadas e os olhos verdes brilhando demais, e pensou em todas as coisas que poderia dizer. Que ninguém sabia. Que ele mesmo tinha dado a ordem de confiar na equipe. Que a Petra tinha escolhido, que o Eld tinha escolhido, que nenhum deles era criança e todos sabiam onde estavam se metendo quando vestiram as Asas da Liberdade. Era tudo verdade, e nada daquilo ia entrar naquela cabeça dura hoje. Então disse a única coisa útil que tinha. — Pega um pano. Eren piscou. — Senhor? — Quarta-feira é dia da cozinha. — Levi apontou com o queixo para a porta da despensa. — Está escrito ali. O Oluo nunca fazia direito. Hoje vai ser feito direito. Eren olhou para a folha na porta. Levi viu o momento em que ele leu os nomes e viu o momento em que chegou ao próprio nome, na sexta-feira, com o pontinho de interrogação do lado. A boca dele tremeu. — Pano — repetiu Levi. — Na segunda gaveta. Não aquele, esse é de chão. O outro. Eren pegou o pano certo. Molhou no balde. Começou pela mesa, do jeito errado, em círculos, espalhando a sujeira em vez de tirar. — Em linha reta — disse Levi. — De um lado pro outro. Sempre para o mesmo lado. Senão você só muda o pó de lugar. — Sim, senhor. Trabalharam em silêncio. Levi terminou a bancada e foi para as prateleiras, mancando, apoiando o peso no pé bom. Eren terminou a mesa e foi para as cadeiras sem precisar de ordem. Lá fora o vento mudou de direção e assobiou numa fresta da janela, aquela que Gunther vivia prometendo calafetar. — A Petra me ensinou a fazer chá — disse Eren de repente, sem levantar a cabeça. — No segundo dia aqui. Disse que o senhor gostava de um jeito específico e que se eu errasse o senhor ia fazer aquela cara. — Que cara? — Essa que o senhor está fazendo agora. Levi parou de passar o pano. Por um momento considerou mandar o garoto de volta para o porão. Depois considerou a lista na porta, a caneca de Oluo no escorredor e o fato de que ninguém mais naquele castelo ia se lembrar de como ele gostava do chá. — E qual é o jeito específico? Eren se endireitou, meio sem graça. — Água tirada do fogo antes de ferver de vez. Folha deixada três minutos, não quatro. E... — ele hesitou — ...a xícara aquecida antes, com um pouco de água quente, que depois a gente joga fora. Levi não respondeu. Foi até o fogão, mancando, e pegou a chaleira. — Mostra. Eren arregalou os olhos. Depois, devagar, largou o pano na cadeira e foi até ele. Pegou a chaleira das mãos de Levi. Acendeu o fogo com dois fósforos, porque o primeiro quebrou, e encheu a chaleira no balde de água limpa, e ficou ali parado esperando, os olhos fixos na água como se ela fosse um titã prestes a se mexer. Levi sentou numa das cadeiras recém-limpas e esticou a perna machucada. Ficou olhando o garoto. A água começou a fazer aquele barulho baixo de antes de ferver, e Eren tirou a chaleira do fogo no momento exato, e Levi não disse nada, porque não precisava. O garoto aqueceu duas xícaras. Jogou a água fora. Colocou as folhas, despejou a água, e ficou contando baixinho, movendo os lábios, até três minutos. Entregou uma xícara a Levi. Levi pegou pela borda, como sempre pegava. Eren ficou olhando, como se fosse falar alguma coisa sobre isso, e desistiu. Levi bebeu. Estava um pouco forte. A Petra sempre deixava um pouco forte também. Ela dizia que era porque ele parecia precisar. — Está bom — disse ele. Eren soltou o ar como se tivesse acabado de sobreviver a uma expedição. Sentou na cadeira em frente com a outra xícara e não bebeu, só segurou com as duas mãos, esquentando os dedos. Ficaram assim um tempo. A cozinha estava limpa, mais limpa do que Oluo jamais tinha deixado. Levi pensou que talvez devesse dizer isso a alguém, e não havia ninguém a quem dizer, e então pensou que talvez houvesse. — O Oluo deixava gordura atrás do fogão — disse ele. — Toda quarta. Achava que eu não via. Eren levantou os olhos. — O senhor via? — Eu sempre via. Ele mordia a língua toda vez que eu reclamava. Uma vez sangrou tanto que a Petra teve que costurar. O garoto riu. Foi um riso molhado e curto e assustado com ele mesmo, mas foi um riso, e Levi deixou acontecer. Quando terminaram o chá, Levi lavou as duas xícaras e colocou no escorredor ao lado da caneca lascada. Depois foi até a porta da despensa e ficou olhando para a escala da faxina. Pensou em tirar a folha dali. Seria o certo, provavelmente. Seria o que o Erwin faria, ou a Hange, ou qualquer pessoa sensata. Em vez disso, tirou o toco de lápis do bolso do casaco e, na linha da sexta-feira, apagou com o polegar o pontinho de interrogação ao lado do nome de Eren. Não saiu inteiro. Ficou uma sombra cinza. Embaixo, com a letra pequena e reta dele, escreveu: "Porão. E a cozinha também, até eu mandar parar." Eren estava atrás dele, lendo por cima do ombro. — Sim, senhor — disse o garoto, com a voz rouca. — Vai dormir, Jaeger. Desta vez ele foi. Levi ficou mais um pouco na cozinha limpa, ouvindo o vento na janela que ninguém tinha calafetado, e então apagou o lampião e subiu a escada devagar, um degrau de cada vez, apoiando o peso no pé bom.

Fim do que foi escrito

O que acontece depois é com você

Continue esta história de onde ela parou, ou reescreva do seu jeito.

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