Capítulo 1
Hatake Kakashi tinha entregado o relatório da missão com três dias de atraso, e a desculpa dessa vez era que um gato preto tinha atravessado o caminho dele e ele precisou dar a volta pela vila inteira para não atrair má sorte. Iruka leu a frase duas vezes, escrita com toda a calma na linha de "observações", e sentiu uma veia começar a pulsar na têmpora.
— Kakashi-san.
— Hmm?
O jōnin estava encostado no balcão da sala de missões, com o livro laranja aberto numa das mãos e a outra no bolso. Parecia completamente à vontade, como sempre. Como se a sala inteira, com as filas de chūnin esperando para entregar papéis e os pergaminhos empilhados até o teto, fosse uma varanda tranquila numa tarde de domingo.
— "Gato preto"? — Iruka repetiu.
— Muito preto. Assustadoramente preto.
— Você é um dos ninjas mais perigosos de Konoha. Já enfrentou membros da Akatsuki. Copiou mais de mil jutsus.
— Pois é. E nunca enfrentei um gato preto de frente. Não se arrisca o que está funcionando.
Uma chūnin atrás dele na fila soltou uma risadinha e tentou disfarçar com uma tosse. Iruka carimbou o relatório com mais força do que o necessário.
— Da próxima vez — disse ele, entre os dentes —, eu quero uma desculpa que pelo menos pareça verdade.
Kakashi fechou o livro e o olhou por cima da máscara. O único olho visível se curvou num sorriso.
— Ah, mas aí perde a graça, Iruka-sensei.
E sumiu numa nuvem de fumaça, deixando para trás três folhas soltas e uma sensação de que Iruka tinha perdido mais uma discussão que nem sabia que estava tendo.
Fazia quase um ano que era assim. Desde que Iruka tinha começado a dividir o tempo entre a Academia e o turno da noite na mesa de relatórios, Kakashi aparecia sempre atrasado, sempre com uma desculpa mais absurda que a anterior. Tinha se perdido no caminho da vida. Tinha ajudado uma velhinha a atravessar a rua, e depois outra, e depois a primeira de novo, porque ela tinha esquecido o guarda-chuva do outro lado. Um corvo tinha roubado a caneta dele. Ele tinha precisado meditar sobre a natureza do tempo.
No começo, Iruka achava que era desrespeito. Depois, que era preguiça. Depois começou a desconfiar que Kakashi fazia de propósito só para ver a cara dele, e essa hipótese, por algum motivo, o irritava ainda mais, ao mesmo tempo que o fazia corar de um jeito que ele preferia não examinar.
Naquela noite, porém, Kakashi não apareceu.
O prazo era meia-noite. Iruka ficou na sala até a uma, organizando pergaminhos que já estavam organizados. Às duas, quando o último chūnin do turno foi embora e as lamparinas da rua começaram a se apagar, ele disse a si mesmo que não estava preocupado. Kakashi sempre se atrasava. Era só mais um atraso.
Às três, ele trancou a sala e foi embora pelo caminho mais longo.
Não sabia direito por que tinha ido até lá. Talvez porque o caminho mais longo passava pelo campo de treino número três, e alguém tinha comentado uma vez, numa conversa qualquer no Ichiraku, que era ali que Kakashi costumava ficar quando não estava em missão. Talvez porque Iruka tinha passado a vida inteira cuidando de pessoas que fingiam não precisar de cuidado, começando por um menino loiro de macacão laranja que pichava o rosto dos Hokages no Monte Hokage.
A noite estava fria e clara. A lua iluminava a grama do campo, os três troncos de madeira onde gerações de genin tinham sido amarrados, e, mais adiante, a pedra escura do memorial.
Kakashi estava sentado no chão, de frente para ela.
Iruka parou a uns vinte passos, escondido na sombra das árvores, sem saber se devia se aproximar ou ir embora. Não precisou decidir.
— Pode vir, Iruka-sensei — disse Kakashi, sem se virar. — Você pisa mais forte quando está bravo. Ouvi você desde a rua.
Iruka se aproximou, devagar. Quando chegou mais perto, viu o sangue.
Não era muito. Uma mancha escura na manga do colete, perto do ombro, já seca nas bordas. Mas havia um rasgo no tecido, e por baixo, um corte mal amarrado com uma faixa que claramente tinha sido enrolada por alguém usando só uma mão.
— Você está ferido.
— Arranhão.
— Você foi para o hospital?
— Ainda não.
— Kakashi.
O jōnin finalmente olhou para ele, e Iruka percebeu, com um aperto no estômago, que nunca tinha visto aquele olhar antes. Não havia sorriso nenhum. Só cansaço, e uma tristeza tão antiga que parecia fazer parte do rosto.
— Eu ia entregar o relatório — disse Kakashi. — Juro. Mas passei por aqui primeiro, e aí...
Ele não terminou a frase. Não precisava.
Iruka olhou para a pedra. Conhecia aqueles nomes, ou alguns deles. Os pais dele estavam ali, gravados lado a lado, do ataque da Kyūbi, quando Iruka tinha dez anos. Sabia que o nome de Uchiha Obito estava ali, o companheiro de equipe de quem Kakashi tinha herdado o Sharingan. Sabia que Nohara Rin estava ali. E o Quarto Hokage, Namikaze Minato, o professor dos três.
E de repente, como um pergaminho que se desenrola sozinho, Iruka entendeu as desculpas.
O gato preto. A velhinha. O caminho da vida. Kakashi não chegava atrasado porque era preguiçoso, nem para provocar. Ele chegava atrasado porque passava aqui antes. Toda vez. Antes de cada relatório, antes de cada missão, ele parava em frente a essa pedra e conversava com quem não podia mais responder. E depois, porque não sabia explicar isso a ninguém, inventava a mentira mais boba que conseguia, para que ninguém nunca perguntasse de verdade.
Iruka sentou no chão ao lado dele, sem pedir licença. Desamarrou a faixa mal enrolada do ombro de Kakashi e começou a refazê-la com as mãos firmes que tinha aprendido em anos de crianças caindo de árvores e se cortando com kunai de treino.
— Você vai precisar de pontos — disse.
— Eu sei.
— E vai ao hospital assim que eu terminar.
— Sim, sensei.
— Não use esse tom comigo.
O olho de Kakashi se curvou, só um pouco. Era a primeira vez naquela noite.
Iruka apertou o nó e não tirou a mão do ombro dele.
— Meus pais estão ali — ele disse, baixinho, apontando com o queixo. — Terceira fileira, um pouco à esquerda. Eu vinha aqui todo dia quando era criança. Ficava horas. Quase ninguém percebia. — Ele fez uma pausa. — O Terceiro percebia. Ele nunca disse nada. Só aparecia de vez em quando, sentava do meu lado e fumava o cachimbo. Às vezes me levava para comer depois.
Kakashi não respondeu, mas Iruka sentiu o ombro dele relaxar sob a palma da mão. Só um pouco. O suficiente.
Ficaram ali em silêncio. O vento passou pelas árvores e mexeu no cabelo dos dois. Lá longe, na vila, um cachorro latiu, e outro respondeu.
— Da próxima vez — disse Iruka, depois de um tempo —, você pode escrever a verdade no relatório. Ninguém vai rir.
— Você ia ler.
— Eu já leio todas as suas mentiras. Ia ser uma mudança agradável.
Kakashi soltou um som pelo nariz que, num homem menos contido, teria sido uma gargalhada.
— Gato preto foi uma das minhas melhores — ele protestou.
— Foi terrível.
— Você riu.
— Eu não ri.
— Riu por dentro. Eu vi.
Iruka sentiu o rosto esquentar e ficou grato pela escuridão. Levantou-se, limpou a grama da calça e estendeu a mão. Kakashi olhou para ela por um segundo, como se não soubesse muito bem o que fazer com uma mão oferecida, e então a segurou.
Os dedos dele estavam frios. Iruka não soltou nem quando Kakashi já estava de pé.
— Hospital — disse Iruka. — Agora. E amanhã, quando você vier aqui, antes de entregar o relatório...
— Sim?
— Passa na Academia primeiro. Eu saio às cinco. — Ele desviou os olhos. — Eu trago chá. Deve ficar frio esperando, se você demorar com um gato preto no caminho, mas eu trago.
Por um longo momento, Kakashi não disse nada. Depois apertou a mão de Iruka, uma vez, com força.
— Eu não vou me atrasar — disse.
Iruka riu, de verdade dessa vez, alto, no meio do campo vazio.
— Essa — ele disse — é a maior mentira que você já me contou.
Mas no dia seguinte, às cinco em ponto, quando Iruka saiu pela porta da Academia com duas xícaras de chá nas mãos, Kakashi já estava encostado no muro, com o braço numa tipoia e o livro laranja fechado, esperando.