Capítulo 1
A varinha de espinheiro passou cinco anos numa gaveta da cozinha do Largo Grimmauld, entre os panos de prato e um abridor de garrafas trouxa que Harry nunca aprendeu a usar. Toda vez que procurava uma colher, os dedos esbarravam nela, e toda vez ele fechava a gaveta como quem fecha uma porta na cara de alguém.
Foi Hermione quem disse, numa terça-feira qualquer, olhando a varinha ao lado do açucareiro onde ele a tinha largado por distração:
— Você sabe que isso não é seu, né?
— Eu ganhei. Tecnicamente.
— Tecnicamente você também ganhou a Varinha das Varinhas, e quebrou ao meio. — Ela tomou um gole de chá e não disse mais nada, o que era muito pior do que se tivesse dito.
Então, numa quinta de novembro, com uma garoa fina que não molhava direito mas também não ia embora, Harry atravessou o Beco Diagonal com a varinha embrulhada num lenço xadrez no bolso do casaco. Sabia onde procurar porque todo mundo sabia: o filho dos Malfoy trabalhava nos fundos de um boticário perto da Travessa do Tranco, moendo besouros e engarrafando poções para dor de dente, e as senhoras da Floreios e Borrões adoravam comentar o quanto isso era humilhante para a família.
O sino da porta tocou. O balcão estava vazio. Do fundo vinha um cheiro de casca de bétula queimada e uma voz que Harry reconheceria em qualquer escuridão.
— Se for o senhor Higgs de novo, a poção para calvície não funciona em quem toma meio frasco e joga o resto no jardim.
— Não sou o senhor Higgs.
Um silêncio. Depois um banco arrastando, passos, e Draco Malfoy surgiu entre duas prateleiras de vidros escuros, de mangas arregaçadas e um avental manchado de verde. Estava mais magro do que Harry lembrava, o cabelo mais curto, e havia uma cicatriz fina na mão esquerda que não existia na guerra. Ele parou a uns três metros do balcão, exatamente a distância de um feitiço bem lançado.
— Potter.
— Malfoy.
— Se veio comprar alguma coisa, a gente fecha em dez minutos. Se veio me prender, eu cumpri a condicional inteira e tenho os papéis.
— Não vim te prender.
— Ótimo. Então veio fazer o quê?
Harry tirou o embrulho do bolso e colocou em cima do balcão, entre uma balança de latão e um pote de raízes de mandrágora secas. Desfez o nó do lenço devagar, porque as mãos de repente não queriam pressa. A varinha apareceu ali, clara, com o mesmo veio escuro perto do cabo que ele conhecia de cor depois de meses carregando-a pela Floresta, por Gringotes, por Hogwarts em chamas.
Draco não se mexeu. Olhou para a varinha como se ela pudesse morder.
— Vinte e cinco centímetros — disse Harry, porque alguém tinha que dizer alguma coisa. — Espinheiro, pelo de unicórnio. Razoavelmente flexível, segundo o Ollivander.
— Eu sei o que é.
— Achei que você ia querer de volta.
— Achou. Cinco anos depois, você achou. — Draco riu, um som curto e sem graça nenhuma. — O que aconteceu, Potter? Faxina de primavera atrasada? O elfo reclamou que estava ocupando espaço?
— O Monstro morreu ano passado.
Draco piscou. Por um segundo a expressão dele perdeu o fio, e Harry viu ali alguma coisa que não sabia nomear.
— Sinto muito — disse Draco, e parecia ser verdade, o que era estranho.
— Ele te achava um bom garoto. Sangue puro, família antiga. Vivia dizendo que a senhorita Narcisa tinha criado um menino de bem.
— Que elogio.
Ficaram os dois olhando para a varinha. Lá fora, a garoa engrossou um pouco e alguém passou correndo com um jornal na cabeça.
— Eu não posso usar — disse Draco, por fim.
— Por quê?
— Porque ela não é mais minha. Você me desarmou. — Ele falou devagar, como se explicasse a um aluno do primeiro ano, mas havia um tremor no fim da frase. — Minha mãe me comprou outra depois do julgamento. Um negócio de amieiro que um velho fabricante da Bulgária fez sob encomenda, porque o Ollivander não quis me atender. Funciona. Mais ou menos. Faz o que eu peço com uns dois segundos de atraso, como se estivesse pensando se eu mereço.
Ele puxou a varinha do bolso do avental e mostrou: escura, comprida, bonita de um jeito que não combinava com ele.
— Toda poção que preciso mexer com magia, eu mexo à mão. É mais seguro.
Harry pensou nas noites em que a varinha de espinheiro tinha obedecido a ele sem reclamar. Pensou em como ela parecia um pouco mais fria do que a de azevinho, um pouco mais desconfiada, e em como nunca deixou de funcionar quando ele precisou. Nunca tinha passado pela cabeça dele que alguém, do outro lado, pudesse estar sentindo falta disso.
— Então me desarma — disse ele.
Draco olhou para ele como se Harry tivesse sugerido que os dois dançassem uma valsa no meio do Beco.
— O quê?
— É assim que funciona, não é? A lealdade passa de quem perde para quem ganha. Eu ganhei de você. Agora você ganha de mim.
— Você ficou maluco. Eu não vou lançar um feitiço num Auror no meio de uma loja. Eu acabei de dizer que tenho papéis de condicional.
— Eu não sou mais Auror. Saí em março.
— Saiu?
— Saí. — Harry deu de ombros. — Cansei de procurar gente escondida em porão. Estou dando aula de voo para criança em Hogsmeade. Paga mal e ninguém tenta me matar, a não ser um menino de nove anos que jura que vai ser da Corvinal e acha que vassoura é para rodar de cabeça para baixo.
Draco abriu a boca e fechou de novo. Pela primeira vez desde que Harry entrou, ele chegou mais perto do balcão.
— Isso não vai dar certo — disse. — Tem que ser de verdade. Se você deixar, a varinha sabe.
— Eu não vou deixar.
— Você é o Harry Potter. Você derrotou o Lorde das Trevas com um feitiço de desarmar. Eu não consigo nem fazer essa coisa acender uma vela na primeira tentativa.
— Então tenta duas vezes.
Harry pegou a própria varinha, a de azevinho, a remendada, e deu três passos para trás, até o meio da loja. Ficou de lado, do jeito que aprendeu no Clube de Duelos e nunca mais desaprendeu. Draco ficou parado atrás do balcão, segurando a varinha de amieiro como quem segura uma faca de cozinha pela lâmina.
— Potter, isso é ridículo.
— Você já disse isso no segundo ano. E aí soltou uma cobra em cima de mim.
— Foi uma boa cobra.
— Foi uma cobra ótima. Vamos.
Draco saiu de trás do balcão. Tirou o avental, dobrou com cuidado exagerado, colocou numa cadeira. Ajeitou as mangas. Cada gesto levava um pouco mais de tempo do que precisava, e Harry esperou todos eles sem dizer nada, porque entendia: às vezes a gente precisa dobrar um avental antes de fazer uma coisa difícil.
Ficaram frente a frente. Harry levantou a varinha. Draco levantou a dele.
— No três? — perguntou Draco.
— Você conta.
— Um.
Harry sentiu a pulsação nos dedos. Não ia deixar. Isso era o mais esquisito: queria que Draco ganhasse e não ia deixar, porque a varinha saberia, e porque Draco saberia, e porque havia um tipo de respeito que só existe quando a outra pessoa tenta de verdade te derrubar.
— Dois.
O sino da porta tocou. Os dois viraram a cabeça ao mesmo tempo, e um senhor de chapéu pontudo encharcado parou na entrada, olhando de um para o outro.
— É... a poção para calvície?
— Volta amanhã, senhor Higgs! — disseram os dois juntos.
O senhor Higgs foi embora sem fazer mais perguntas. E no meio daquele segundo de distração, Draco gritou:
— Expelliarmus!
Harry viu o feitiço vir. Viu tudo: o atraso da varinha de amieiro, os dois segundos de hesitação, o jato vermelho saindo meio torto. Teve tempo de bloquear. O braço chegou a se mexer, o Protego estava na ponta da língua, e então, antes que ele decidisse alguma coisa, o feitiço acertou o pulso dele com uma força que não tinha nada de hesitante, e a varinha de azevinho voou por cima do balcão e caiu dentro de um caldeirão vazio com um som de sino.
O silêncio que veio depois era do tipo que dá para ouvir.
— Você deixou — disse Draco, ofegante.
— Não deixei.
— Você deixou, eu vi o seu braço...
— Eu tentei bloquear e você foi mais rápido. A sua varinha demorou e depois veio com tudo. Acho que ela só estava esperando você ter certeza.
Draco ficou olhando para a própria mão. Depois, devagar, foi até o balcão e pegou a varinha de espinheiro.
Harry soube pelo rosto dele antes de qualquer coisa. Não houve faísca, nem luz, nem nenhuma das coisas que acontecem na loja do Ollivander quando um bruxo de onze anos encontra a varinha certa. Draco só fechou os dedos em volta do cabo e soltou o ar como se estivesse segurando aquele fôlego desde o Salão Principal, cinco anos antes.
— Lumos — sussurrou ele.
A ponta acendeu na hora, firme e branca, e iluminou o rosto dele de baixo para cima, e iluminou as prateleiras, os vidros, a cicatriz na mão esquerda.
— Ela está quente — disse Draco, sem olhar para Harry. — Eu tinha esquecido que ela ficava quente.
Harry foi buscar a própria varinha no caldeirão. Precisou enfiar o braço inteiro lá dentro, e quando tirou a manga estava suja de alguma coisa verde e grudenta. Draco viu e, pela primeira vez, riu de verdade, um riso que pegou os dois de surpresa.
— Isso é resíduo de Poção Revigorante. Vai ficar com cheiro de hortelã por uma semana.
— Ótimo. As crianças vão adorar.
— Tira o casaco. Eu tenho um removedor nos fundos.
Harry tirou o casaco. Draco sumiu entre as prateleiras e voltou com um frasco e um pano, e ficou esfregando a manga em cima do balcão com uma concentração que não deixava espaço para conversa. A varinha de espinheiro estava enfiada atrás da orelha dele, como um lápis. Harry não comentou.
— A gente fecha às sete às quintas — disse Draco, ainda esfregando. — Se você quiser trazer o seu casaco pra eu ver se a mancha saiu de vez.
— A mancha vai sair hoje.
— Pode não sair. Resíduo de Revigorante é teimoso.
Harry olhou para ele. Draco não levantou os olhos do pano, mas as orelhas tinham ficado vermelhas, e a varinha atrás de uma delas brilhava um pouquinho, como se ainda estivesse acesa por dentro.
— Às sete, então — disse Harry. — Quinta que vem.
— Eu não disse que era um convite.
— Eu sei. Eu também não disse que vinha por causa do casaco.
Draco parou de esfregar. Ficou um tempo assim, com o pano na mão. Depois dobrou o casaco de Harry, com o mesmo cuidado exagerado com que tinha dobrado o avental, e entregou por cima do balcão.
— Traz chá — disse. — O daqui é horrível.