Capítulo 1
Às cinco e meia da manhã, Roronoa Zoro estava de avental cor-de-rosa na cozinha do Thousand Sunny, e a culpa era inteira de uma faca que tinha escorregado da bancada no dia anterior. Sanji agarrou a lâmina no ar antes que ela acertasse a cabeça de Chopper, e Chopper, em vez de agradecer como uma rena normal, enfaixou a mão direita do cozinheiro até o pulso e proibiu qualquer uso por três dias.
— Três dias! — Sanji tinha gritado. — Eu cozinho pra nove pessoas, uma delas é o Luffy, e você quer que eu fique três dias sem usar a mão?
— Se abrir os pontos, vão ser três semanas — disse Chopper, com a autoridade de quem já costurou o Zoro inteiro mais de uma vez.
A Nami sugeriu que cada um se virasse com pão. O Luffy chorou. O Usopp se ofereceu para ajudar e foi recusado, porque na última vez em que ajudou na cozinha a fumaça chegou até o mastro. O Franky estava ocupado com um vazamento no Soldier Dock System, o Brook tinha decidido tocar violino para os peixes no convés, e a Robin disse, com um sorriso calmo, que cozinhava muito bem, mas só pratos que precisavam de quatro horas no fogo.
Sobrou o Zoro. E o Zoro devia ao Sanji uma aposta perdida sobre quem aguentava mais tempo debaixo d'água, o que, na lógica estranha daquele navio, era praticamente um contrato assinado.
— Eu não vou usar isso — disse Zoro, segurando o avental com dois dedos.
— Você vai usar isso porque é o único avental limpo e eu não vou deixar sangue de monstro marinho seco cair na sopa da Nami-san.
— Que sopa? Ninguém falou de sopa.
— Missô. Arroz. Peixe grelhado. Ovo. Um café da manhã decente, cabeça de alga. Não aquela gororoba que você come quando está sozinho.
— Eu como carne seca.
— Exatamente.
Zoro vestiu o avental. Era pequeno demais, e as alças mal fechavam nas costas, e ele parecia um armário que alguém tinha tentado embrulhar para presente. Sanji acendeu um cigarro com a mão esquerda, recostou na parede e olhou para ele com uma satisfação profunda que não tentou esconder.
— Primeiro, o arroz. Lava três vezes.
— Lavar o arroz? Ele não está sujo.
— Lava o arroz, marimo.
Zoro lavou o arroz. Lavou com tanta força que metade dos grãos foi pelo ralo, e Sanji soltou um som de animal ferido e enfiou a mão boa na pia para salvar o que dava.
— Devagar! Com a ponta dos dedos, como se fosse... sei lá... alguma coisa que você não quer quebrar.
— Eu quebro tudo.
— Então finge.
Na segunda vez foi melhor. Na terceira, Sanji não disse nada, o que Zoro entendeu como elogio, porque era o mais perto disso que ia receber.
Depois veio o peixe. Era um peixe-espada grande, pescado pelo Usopp na véspera, e Sanji apontou para a tábua e para a faca de filetar e começou a explicar, com o cigarro balançando entre os lábios, onde entrar com a lâmina, que ângulo usar, como seguir a espinha sem perder carne.
Zoro olhou para a faca de filetar. Olhou para o peixe. Olhou para a Wado Ichimonji, encostada na parede junto da porta.
— Nem pense nisso — disse Sanji.
— Eu não disse nada.
— Você olhou para a espada.
— É mais afiada.
— Ela é uma espada! Você já cortou aço com isso! Você não vai cortar o café da manhã dos meus amigos com uma coisa que corta aço!
— A faca quase abriu a cabeça do Chopper ontem.
Sanji abriu a boca e não respondeu, o que era raro o bastante para Zoro guardar o momento na memória. Aproveitou o silêncio, pegou a Wado, desembainhou só uma vez, um movimento curto, quase preguiçoso, e embainhou de novo.
Na tábua, o peixe estava em três partes. Dois filés perfeitos, limpos, de espessura idêntica. E a espinha inteira, intacta, com a cabeça ainda presa, sem um fiapo de carne grudado.
Sanji tirou o cigarro da boca.
Chegou perto da tábua. Pegou um dos filés com a mão boa, levantou contra a luz que começava a entrar pela janela redonda. Olhou de um lado, olhou do outro. Passou o polegar pela superfície do corte.
— Isso não prova nada — disse ele.
— Prova que eu corto melhor que você.
— Prova que você tem uma faca de três metros e nenhum respeito pela culinária! — Sanji colocou o filé de volta com mais cuidado do que precisava. — A espinha. Não joga fora. Vai pro caldo.
— Pra quê?
— Porque a gente não desperdiça comida nesse navio, seu idiota. Nunca.
Zoro ia responder alguma coisa e não respondeu. Já tinha ouvido aquela frase muitas vezes, em muitos tons, mas naquela manhã ela saiu diferente, mais baixa, e o Sanji virou de costas logo depois, fingindo procurar o missô na prateleira. Zoro sabia de onde vinha aquilo. Todo mundo no navio sabia, mais ou menos, de uma rocha no meio do mar e de um velho de perna de pau. Ninguém falava disso.
Ele colocou a espinha numa panela.
O resto da manhã foi uma guerra. Zoro queimou o primeiro ovo porque ficou olhando a frigideira com a mesma cara que fazia antes de uma luta, esperando que ela atacasse primeiro. Sanji gritou. Zoro quebrou o segundo ovo com força demais e a casca foi parar dentro da tigela, e Sanji gritou mais alto, e o Luffy apareceu na porta perguntando se a comida já estava pronta, e os dois gritaram com ele ao mesmo tempo, e ele foi embora feliz porque pelo menos alguém estava cozinhando.
No terceiro ovo, Sanji parou de gritar e foi para trás de Zoro. Ficou ali, com o peito quase encostando nas costas dele, e pôs a mão boa por cima da mão de Zoro no cabo da frigideira.
— Pulso solto — disse ele, perto do ouvido. — Não é uma espada. Você não está tentando matar o ovo. Só está... convencendo ele.
— Convencendo o ovo.
— Cala a boca e sente o peso.
Zoro sentiu o peso. Sentiu também a respiração do Sanji na nuca, com cheiro de cigarro e café, e decidiu que aquilo era irrelevante para a tarefa. O ovo enrolou direito pela primeira vez. Sanji soltou a mão dele na mesma hora e voltou para a parede como se nada tivesse acontecido.
— Aceitável — disse.
— Ficou perfeito.
— Ficou aceitável, cabeça de alga. Perfeito é quando eu faço.
Às sete e quinze, a mesa do refeitório estava posta. Arroz branco, soltinho. Sopa de missô com o caldo de espinha. Peixe grelhado, dois filés idênticos cortados em nove porções. Uma pilha de ovos enrolados, os primeiros meio tortos, os últimos quase bonitos.
A tripulação entrou e parou na porta.
— O Zoro fez isso? — perguntou o Usopp, desconfiado. — Tem certeza de que não está envenenado?
— Eu supervisionei — disse Sanji. — Ninguém morre comendo a comida que eu supervisiono.
O Luffy já estava com a boca cheia antes de alguém sentar. A Nami provou a sopa, levantou as sobrancelhas e disse que estava boa, e Sanji explodiu em corações e fumaça e quase abriu os pontos de tanto agitar os braços. O Chopper correu para segurar a mão dele. A Robin comeu em silêncio, sorrindo para o Zoro por cima da tigela de um jeito que ele preferiu não interpretar.
Zoro não sentou. Ficou na cozinha, lavando a frigideira, porque alguém tinha que lavar e porque, se sentasse, ia ter que escutar elogios, e não sabia o que fazer com elogio.
Quando a algazarra lá fora diminuiu, Sanji apareceu na porta da cozinha. Encostou no batente, a mão enfaixada no bolso, um cigarro novo apagado na boca.
— Você não comeu — disse ele.
— Você também não.
Era verdade. O Sanji nunca comia antes de todo mundo terminar. Zoro sabia disso desde o Baratie e nunca tinha comentado.
Zoro enxugou as mãos no avental cor-de-rosa. Do canto da bancada, pegou um prato pequeno onde tinha guardado, escondido atrás da lata de farinha, um bolinho de arroz. Tinha feito sozinho, enquanto Sanji estava ocupado gritando com o Luffy. Era torto. Tinha sal demais por fora, porque ele não sabia quanto era a quantidade certa, e um pedaço de peixe grelhado enfiado no meio, meio para fora.
Estendeu o prato.
Sanji ficou olhando para o bolinho de arroz. Depois para o Zoro. Depois para o bolinho de novo.
— Isso é a coisa mais feia que eu já vi na minha vida.
— Então não come.
Sanji pegou o bolinho com a mão boa. Mordeu. Mastigou devagar, de olhos fechados, do jeito que fazia quando provava o tempero de alguém em outro navio, em outro restaurante, alguém que ele ia criticar depois.
— Salgado demais — disse.
— Eu sei.
— O arroz está apertado demais. Desmancha errado.
— Eu sei.
Sanji deu outra mordida. E outra. Comeu o bolinho inteiro, até o último grão, encostado no batente, sem dizer mais nada. Depois lambeu o polegar, tirou o cigarro apagado da boca e olhou para o Zoro com uma expressão que Zoro não conseguiu ler e que ia passar o resto do dia tentando decifrar no convés, de olhos fechados, fingindo dormir.
— Amanhã você faz de novo — disse Sanji. — Seis da manhã. Sem espada.
— Com espada.
— Sem espada, marimo.
— Vou pensar.
Sanji jogou o avental cor-de-rosa na cara dele e saiu. Zoro ficou parado na cozinha com o avental na cabeça, e só depois de um tempo percebeu que o prato estava vazio, completamente vazio, sem nenhum grão de arroz, e que nesse navio aquilo queria dizer muita coisa.