Dez palavras à beira do lago

Vingadores · fanfic · Hurt/Comfort · 2026

1 capítulo1.596 palavrasPT
Capítulo 1 de 1

Sobre a trama

Em Wakanda, Bucky pede a Steve algo impossível: ler em voz alta as palavras que um dia o transformaram no Soldado Invernal. Se ele não for mais ele, Steve prometeu derrubá-lo.

Tags

SlashRomanceAngstRelacionamento saudávelMedoEsperançaCenário canônico

Capítulo 1

Bucky Barnes pediu a Steve que lesse as palavras numa tarde em que as cabras estavam calmas e o lago parecia um espelho. Steve demorou para entender o que ele estava pedindo, e quando entendeu, deixou cair o balde de água. — Nem pensar — disse. — Você nem ouviu direito. — Ouvi o suficiente. Bucky se abaixou, pegou o balde e o entregou de volta com a mão que lhe restava. O cotoco do braço esquerdo estava coberto pela manta vermelha que ele usava jogada sobre o ombro desde que chegara a Wakanda, e que as crianças da aldeia tinham começado a chamar de capa do Lobo Branco. Ele fingia que o apelido o incomodava. Steve sabia que não. — Senta aí — disse Bucky, apontando a cerca baixa de madeira que separava o cercado das cabras da margem do lago. — Deixa eu explicar antes de você fazer essa cara. — Que cara? — A cara de quem vai bater em alguém por mim. Eu conheço essa cara desde que você tinha um metro e meio e pesava quarenta quilos de pura teimosia. Steve sentou. A barba, que ele deixava crescer desde que deixara de ser bem-vindo em qualquer lugar com bandeira, coçava no calor. Fazia três dias que ele estava ali, a primeira visita em meses, e cada hora tinha passado rápido demais. Natasha e Sam o esperavam num esconderijo do outro lado do mundo. Ele teria de voltar logo. Os dois sabiam disso sem precisar dizer. Bucky sentou ao lado dele. Uma das cabras, a manchada que ele chamava de Duquesa por motivos que nunca explicou, veio cheirar a manga de sua camisa. — A Shuri terminou há dois meses — começou Bucky. — Ela diz que limpou tudo. Que as palavras não fazem mais nada. Ela me mostrou os exames, os gráficos, umas imagens do meu cérebro que pareciam fogos de artifício. Eu acredito nela. Ela é a pessoa mais inteligente que eu já conheci, e olha que eu conheci o Howard Stark. — Então qual é o problema? — O problema é que ninguém testou. Steve olhou para ele. — Buck. — Ela quis testar. Eu não deixei. — Bucky passou a mão pela cabeça da Duquesa, distraído. — Ficava imaginando: e se não tiver funcionado? E se ela disser a primeira palavra e eu sentir aquilo de novo, aquela coisa fria descendo pela espinha, e na terceira palavra eu já não for eu? Ela tem dezesseis anos, Steve. Eu não ia arriscar machucar uma garota de dezesseis anos num laboratório. — E comigo você arrisca? — Com você, se der errado, pelo menos você consegue me segurar. Steve abriu a boca para responder e a fechou de novo. Era um argumento horrível. Era também, de um jeito torto, o maior elogio que alguém já tinha feito a ele. — E se der certo? — perguntou. Bucky ficou um tempo calado. Lá longe, do outro lado do lago, um grupo de pescadores puxava as redes para dentro de um barco estreito, cantando alguma coisa em xhosa que o vento trazia em pedaços. — Se der certo, eu vou poder dormir — disse ele. — Eu durmo, sabe? Mais do que antes. Mas tem noite em que eu acordo achando que alguém está no quarto, sussurrando. Que alguém encontrou o caderno. Que vou abrir os olhos e já vai ter acontecido alguma coisa. — Ele deu de ombros, o movimento desigual de quem só tem um braço para equilibrar. — Eu preciso ouvir. Preciso ouvir as palavras e continuar aqui. Senão elas vão ficar para sempre lá dentro, esperando. Steve olhou para as próprias mãos. Pensou no Brooklyn, no apartamento de dois cômodos onde a mãe dele tinha morrido, em Bucky aparecendo na porta depois do enterro com um par de sapatos velhos e a frase que Steve nunca esqueceu: você não precisa passar por isso sozinho. Pensou no gelo. No trem. No rio em Washington, no metal da mão de Bucky segurando sua gola, puxando-o para cima em vez de deixá-lo afundar. Pensou no bunker na Sibéria, no escudo descendo, no som do braço se partindo. — Eu não sei russo — disse Steve, por fim. — Eu sei. Escrevi traduzido. — Bucky tirou do bolso da calça um papel dobrado em quatro, amassado de tanto ser aberto e fechado. — Pode ser assim. Não importa a língua. A Shuri disse que o gatilho era o significado e a sequência, mais do que o som. Ela não tem certeza. Mas disse que era o mais provável. Steve pegou o papel. A letra era a de Bucky, inclinada para a direita, a mesma das cartas que ele mandava do campo de treinamento em 1943 e que Steve guardava numa caixa de sapato debaixo da cama. Dez palavras, uma embaixo da outra, numeradas. — Se acontecer alguma coisa — disse Bucky —, se eu olhar para você e você perceber que não sou eu, você me derruba. Não pensa. Não conversa. Me derruba e chama a Okoye. Promete. — Buck… — Promete, Steve. Steve dobrou o papel de volta, uma vez, sem conseguir dobrar a segunda. Respirou fundo. — Prometo. Bucky assentiu. Fechou os olhos. Abriu de novo. Ajeitou-se na cerca, de frente para Steve, com as costas retas como um soldado em revista, e Steve detestou cada segundo daquela postura, porque reconhecia nela outra pessoa, alguém que tinha passado setenta anos sentado numa cadeira esperando ordens. — Pode começar. Steve olhou para o papel. — Anseio. Nada. Bucky continuou olhando para ele, a mandíbula travada. — Enferrujado. Uma das cabras baliu. A mão direita de Bucky se fechou sobre a madeira da cerca, os nós dos dedos ficando brancos. — Dezessete. — Continua — disse Bucky, entre os dentes. — Alvorada. Fornalha. Nove. Steve ouvia a própria voz como se viesse de outro lugar. Lia as palavras devagar, uma por uma, com a mesma voz que usava para ler os jornais em voz alta para a mãe quando ela estava cansada demais para segurar o papel. Prestava atenção em tudo: na respiração de Bucky, no brilho dos olhos dele, no jeito como os ombros se mexiam. Estava pronto para se levantar a qualquer momento. Estava pronto para cumprir a promessa e odiava estar pronto. — Benigno. Regresso. Bucky tinha começado a tremer. Era um tremor leve, que começava na mão e subia pelo braço. Steve parou. — Buck. Fala comigo. — Não para. — A voz saiu rouca. — Se parar agora, eu nunca mais vou ter coragem. Termina. Steve engoliu em seco. — Um. Bucky fechou os olhos com força. — Vagão de carga. O silêncio que veio depois foi o mais longo da vida de Steve, e ele tinha passado setenta anos congelado no fundo do oceano. Os pescadores tinham parado de cantar. O lago continuava liso. A Duquesa mastigava capim aos pés deles, completamente indiferente. Steve esperou, o corpo tenso, o papel amassado na mão, sem saber se o homem que ia abrir os olhos seria o amigo que dividiu com ele um colchão no inverno de 1936 ou o soldado sem nome que tinha tentado matá-lo numa ponte. Bucky abriu os olhos. Olhou em volta, para o lago, para as cabras, para o céu cor de laranja que começava a escurecer sobre as montanhas. Depois olhou para Steve, e sua boca tremeu num canto, e ele disse, com a voz quebrada e inconfundível do Brooklyn: — Você lê feito padre em missa de domingo, sabia? Quase dormi no meio. Steve riu. Não conseguiu evitar. Riu de um jeito que não ria havia anos, e a risada se misturou a outra coisa no meio do caminho, alguma coisa quente e úmida que subiu pela garganta, e ele largou o papel e puxou Bucky para si sem pensar em nada. Bucky deixou. Encostou a testa no ombro de Steve e ficou ali, respirando, o tremor diminuindo aos poucos até sumir. Steve passou a mão pelas costas dele, sentindo os ossos da coluna, o calor da pele através do tecido fino, a manta vermelha escorregando do ombro sem braço. — Ainda sou eu — disse Bucky contra a camisa dele, baixinho, como se precisasse ouvir a frase em voz alta para acreditar. — Eu sei. — Como você sabe? Steve afastou-se só o suficiente para olhar para ele. Os olhos de Bucky estavam vermelhos, o cabelo comprido grudado na testa de suor. Parecia exausto. Parecia ter cem anos e parecia ter dezoito, as duas coisas ao mesmo tempo. — Porque o Soldado Invernal nunca reclamou do meu jeito de ler — respondeu Steve. Bucky soltou uma risada curta pelo nariz. Depois, sem aviso, ergueu a mão e a pousou no rosto de Steve, o polegar passando pela barba, devagar, como se quisesse decorar a textura. — Isso aqui está horrível, sabia? — Você já disse. Ontem. E anteontem. — Vou continuar dizendo até você raspar. — Então eu não raspo nunca. Eles ficaram assim enquanto o sol descia atrás das montanhas e a primeira estrela aparecia sobre o lago. Steve pensou em Natasha e Sam, no esconderijo, no quinjet que teria de pegar em dois dias. Pensou em todas as coisas que poderiam dar errado no mundo lá fora, que sempre davam errado no mundo lá fora. Depois parou de pensar, porque Bucky tinha encostado a testa na dele. Naquela noite, Bucky dormiu até o amanhecer sem acordar uma única vez, e Steve, que passou boa parte das horas escuras só olhando para ele, não se importou nem um pouco.

Fim do que foi escrito

O que acontece depois é com você

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