A safra do último outono

Genshin Impact · fanfic · Hurt/Comfort · 2026

1 capítulo1.614 palavrasPT
Capítulo 1 de 1

Sobre a trama

No aniversário da noite que os separou, Kaeya aparece na Angel's Share depois do expediente. Diluc tem uma garrafa que nunca abriu e uma frase que nunca disse ao irmão.

Tags

DramaGenFamíliaPerdãoAgridoceCenário canônicoPerda

Capítulo 1

Kaeya chegou à Angel's Share quando Charles já virava as cadeiras sobre as mesas, e Diluc soube, pelo jeito como a porta se abriu devagar demais, que a noite ia ser longa. Lá fora, a chuva caía sobre Mondstadt havia três dias, do tipo que entra pela gola do casaco e não sai mais. — Fechamos — disse Diluc, sem levantar os olhos do copo que secava. — Eu sei ler, irmão querido. A plaquinha está bem ali. — Kaeya pendurou a capa encharcada no gancho perto da lareira, como se fosse dono do gancho, da lareira e talvez do prédio inteiro. — Só vim me secar. Juro que não peço nada. Charles trocou um olhar com o patrão, colocou a última cadeira no lugar e pegou o guarda-chuva atrás do balcão. — Deixo a chave do depósito na gaveta, mestre Diluc. — Obrigado, Charles. Vai com cuidado. A porta bateu. O relógio da parede marcava onze e quarenta. Kaeya escolheu o banco do canto, o mesmo de sempre, e apoiou o queixo na mão. A água pingava das pontas do cabelo dele e escorria pela pele escura do pescoço até sumir dentro da camisa. Diluc colocou um pano seco no balcão, entre os dois, sem dizer nada. — Que gentileza. — Kaeya pegou o pano e o usou para enxugar o rosto, cuidando para não deslocar o tapa-olho. — Você sabe que dia é hoje? — Terça. — Sabe, sim. Diluc continuou secando o copo, que já estava seco havia um bom tempo. Claro que sabia. A data morava nele feito uma farpa debaixo da unha: não doía o tempo todo, mas bastava encostar. Fazia anos que o pai tinha morrido naquela estrada, numa noite que também era de chuva, e fazia anos que, poucas horas depois, Kaeya tinha batido à porta do quarto dele para contar a verdade sobre de onde vinha. Diluc ainda se lembrava do calor subindo pelo braço. Da Visão ardendo no peito como uma brasa que ninguém conseguiria apagar. Da espada. Do gelo que surgiu do nada entre os dois e da expressão no rosto de Kaeya, a de quem não sabia que tinha aquilo dentro de si até aquele segundo. — Você não veio se secar — disse Diluc. — Não. — Kaeya sorriu, mas o sorriso não chegou ao olho visível. — Vim porque todo ano eu passo esta noite no quartel-general, fingindo que leio relatório, e todo ano a Jean me manda para casa e eu não vou. Este ano pensei: já que vou ficar acordado de qualquer jeito, que seja num lugar com bebida boa. — Eu disse que está fechado. — E eu disse que não pediria nada. Estou cumprindo minha palavra. Olhe só para mim, um exemplo de cavaleiro. Diluc largou o copo. Pegou outro. A lenha estalou na lareira e, por um tempo, só se ouviu a chuva batendo nas janelas e o tique-taque do relógio. Kaeya tamborilava os dedos na madeira do balcão, e onde as pontas encostavam ficava uma película finíssima de geada, que derretia logo em seguida. — Você está fazendo isso de novo — disse Diluc. — Fazendo o quê? — O gelo. No meu balcão. Kaeya olhou para a mão como se ela pertencesse a outra pessoa. Fechou os dedos. — Desculpe. Acontece quando estou distraído. — Acontece quando você está nervoso. O silêncio que veio depois tinha outro peso. Kaeya ergueu a cabeça, e por um instante pareceu ter dezessete anos outra vez, encharcado num corredor da vinícola, esperando que alguém dissesse que ele ainda tinha lugar naquela casa. — Você lembra disso? — perguntou ele, baixinho. — Eu lembro de tudo, Kaeya. Esse é o problema. Diluc virou de costas e foi até a estante dos fundos, onde ficavam as garrafas que ele não vendia. Passou os dedos pelos rótulos empoeirados até encontrar a que procurava: vidro escuro, rolha selada com cera vermelha, uma data escrita à mão na letra inclinada do pai. A safra do último outono de Crepus Ragnvindr. Ele tinha guardado aquela garrafa por tanto tempo que ela já tinha deixado de ser vinho e virado outra coisa, uma espécie de promessa que ninguém tinha feito em voz alta. Quando voltou ao balcão, Kaeya tinha parado de tamborilar. — Diluc. Isso é… — Eu sei o que é. — Você nunca abriu. — Não tinha com quem. Diluc tirou o saca-rolhas do bolso do avental. A cera rachou, a rolha saiu com um som abafado, e o cheiro tomou conta do espaço entre eles: uva madura, carvalho, alguma coisa doce no fundo que lembrava os verões em que os dois corriam pelos parreirais e voltavam para casa com as mãos roxas e o pai fingia bronca. Diluc serviu duas taças. A dele ficou pela metade. — Achei que você não bebesse — disse Kaeya. — Não bebo. Hoje é exceção. Kaeya não tocou na taça. Olhava para o vinho como quem olha para uma carta que tem medo de abrir. — Por que agora? — perguntou. — A gente passou anos sem conseguir ficar na mesma sala sem que um dos dois saísse arranhado. E de repente você me serve o vinho do seu pai. — Do nosso pai. Kaeya ficou imóvel. Diluc não tinha planejado dizer aquilo. As palavras simplesmente saíram, do jeito que o fogo sai quando ele perde a paciência numa luta, e agora estavam ali, sobre o balcão, sem possibilidade de volta. Ele poderia ter consertado. Poderia ter dito qualquer coisa ríspida para devolver a conversa ao lugar seguro de sempre, onde os dois trocavam farpas e ninguém sangrava de verdade. Em vez disso, sentou no banco atrás do balcão, de frente para Kaeya, e apoiou os cotovelos na madeira. — Ele te criou — disse Diluc. — Te ensinou a montar, a segurar a espada, a mentir mal nas partidas de cartas para eu ganhar. Ele te amava. Eu passei muito tempo com raiva, e boa parte dessa raiva era porque eu achava que, se você tinha mentido sobre de onde vinha, então talvez tivesse mentido sobre todo o resto também. Sobre ser meu irmão. — Eu não menti sobre isso. — A voz de Kaeya falhou na última palavra. — Nunca. — Eu sei. Demorei, mas sei. Kaeya abaixou a cabeça. Os ombros dele subiram e desceram uma vez, devagar. Quando voltou a falar, a leveza de sempre tinha desaparecido. — Naquela noite, eu achei que você fosse me matar. — Eu também achei. — E depois você foi embora. Passou anos longe. Eu ficava pensando que a culpa era minha, que se eu tivesse ficado calado você ainda estaria aqui, nos Cavaleiros, sendo o capitão perfeito que todo mundo adorava, e eu seria só o irmão adotivo que faz piadas nas reuniões. — Eu não fui embora por sua causa. — Não? Diluc pensou na estrada, no corpo do pai, na ordem de silêncio que recebeu dos superiores, no tom educado de quem dava o assunto por encerrado antes mesmo de o caixão descer. Pensou nos anos fora de Mondstadt, nas noites dormindo em lugares que ele não quer lembrar, perseguindo gente que talvez nem merecesse ser perseguida. — Fui embora porque não aguentava olhar para o uniforme — disse ele. — Você foi só a desculpa que eu usei para não admitir isso. Foi injusto. Com você, principalmente. Kaeya riu, um riso molhado, meio quebrado. — Diluc Ragnvindr pedindo desculpas. Se eu contar para a Jean, ela não acredita. — Então não conta. — Vou contar para todo mundo. Vou mandar imprimir no jornal da cidade. — Kaeya. — Tá bom, tá bom. Ele finalmente pegou a taça. Girou o vinho devagar, como o pai tinha ensinado aos dois quando ainda eram pequenos demais para beber, só para que aprendessem a apreciar o cheiro. Diluc percebeu que fazia o mesmo movimento, no mesmo ritmo, e não soube se aquilo era engraçado ou triste. Talvez fosse as duas coisas. — A ele, então? — disse Kaeya, erguendo a taça. Diluc ergueu a dele. — A ele. O vinho tinha gosto de outono. Diluc não era especialista no próprio produto, por mais que isso escandalizasse os comerciantes que vinham negociar com a vinícola, mas reconheceu alguma coisa naquele gole que não estava em nenhuma outra garrafa. Talvez fosse só a memória. Talvez a memória fosse justamente o que o pai tinha engarrafado. Ficaram ali, em silêncio, até as taças esvaziarem. Lá fora, a chuva tinha diminuído para um chuvisco. O relógio passou da meia-noite e a data ruim virou uma data qualquer, uma quarta-feira sem importância. — Passou — disse Kaeya, olhando para o relógio. — Passou. — Ano que vem eu volto. Se você não se importar. Diluc recolheu as taças e as levou até a pia. De costas, abriu a torneira e deixou a água correr por mais tempo do que precisava. — A Adelinde vai querer saber se você vai jantar na vinícola antes — disse ele. — Ela sempre pergunta. Eu sempre digo que não sei. Atrás dele, ouviu o banco ranger. Ouviu os passos de Kaeya contornando o balcão, coisa que nenhum cliente tinha permissão para fazer. Sentiu o frio leve que sempre vinha com ele, como uma corrente de ar de inverno entrando por uma janela mal fechada. Kaeya parou ao lado dele, pegou um pano e começou a secar as taças que Diluc lavava. — Diz a ela que eu vou — respondeu Kaeya. — E que quero aquela torta de maçã. Diluc não sorriu. Mas fechou a torneira um pouco mais devagar, e passou a taça seguinte para as mãos do irmão sem que ele precisasse pedir.

Fim do que foi escrito

O que acontece depois é com você

Continue esta história de onde ela parou, ou reescreva do seu jeito.

Compartilhar:XTelegramReddit