O lado em que não há mão

Game of Thrones · fanfic · UST (tensão sexual não resolvida) · 2026

1 capítulo1.570 palavrasPT
Capítulo 1 de 1

Sobre a trama

Horas antes da Longa Noite, a fivela da armadura de Brienne arrebenta e só Jaime Lannister está por perto para consertar. Entre couro, aço e perguntas, sobra pouco tempo para o que não foi dito.

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Repressão mútuaSlow Burn (romance lento)Cenário canônicoAgridoceNobrezaPOV em terceira pessoa

Capítulo 1

A fivela da ombreira de Brienne arrebentou duas horas antes da meia-noite, e ela teria preferido enfrentar os mortos sem ela a pedir ajuda a Jaime Lannister. Infelizmente, o ferreiro de Winterfell estava soterrado de pedidos, os escudeiros tinham ido buscar flechas, e Jaime estava ali, encostado no batente do arsenal, como se tivesse sido enviado pelos deuses especificamente para irritá-la. — Precisa de uma mão? — ele perguntou. Ela o encarou. — Não. — Era uma piada. Uma mão. Eu tenho só uma. Achei que ia render pelo menos um sorriso. — Não rendeu. — Percebi. Ele entrou mesmo assim. O arsenal era uma sala comprida e baixa, cheirando a óleo, couro e ferro frio. Lá fora, o pátio fervia de gente: homens do Norte afiando machados, Imaculados em fileiras silenciosas, crianças carregando baldes de água para os poços. O céu estava cinza-chumbo e não havia vento. Todo mundo sabia o que isso significava. A Longa Noite ia chegar com o escuro, e o escuro estava perto. Brienne tinha tirado a ombreira e a segurava contra a luz da tocha. A tira de couro que prendia a fivela tinha se partido rente ao rebite. — Deixa eu ver — disse Jaime. — Você não é ferreiro. — Não. Mas passei a vida inteira dentro de uma armadura. Aprendi uma ou duas coisas antes de perder a mão, e uma ou duas depois. — Ele estendeu a esquerda, a boa. — Por favor, sor. A palavra a atingiu como sempre, de leve, num lugar que ela ainda não sabia proteger. Fazia menos de um dia. Na noite anterior, diante da lareira, com Tyrion, Podrick, Tormund e Sor Davos olhando, Jaime tinha erguido a espada e encostado a lâmina nos ombros dela, um de cada vez. Em nome do Guerreiro, seja corajosa. Em nome do Pai, seja justa. Ela ainda sentia o peso do aço nos ombros, mesmo agora, de armadura, mesmo quando pensava em outras coisas. Brienne lhe entregou a ombreira. Jaime sentou num banco, apoiou a peça no joelho e a examinou com a cabeça baixa. A mão dourada repousava na coxa, inútil, refletindo a luz da tocha. Ele usou os dentes para segurar uma ponta da tira enquanto puxava a outra com os dedos, e Brienne precisou desviar os olhos, porque havia algo naquilo que doía de olhar. O homem que tinha sido o melhor espadachim dos Sete Reinos, prendendo couro com os dentes como um mendigo remendando bota. — Pega a sovela — ele disse, ainda com a tira na boca, e a frase saiu abafada. — Ali, na mesa. Ela pegou. Ele indicou com o queixo onde furar. Ela furou. Ele passou o couro novo pelo buraco, e ela segurou a fivela no lugar enquanto ele dava o nó. Trabalharam assim por um tempo, em silêncio. Era estranho como os dois se encaixavam bem quando nenhum deles estava falando. — Por que você fez aquilo? — Brienne perguntou, por fim. Jaime não ergueu os olhos. — Fiz muitas coisas. Vai precisar ser mais específica. — Ontem à noite. — Ah. — Ele apertou o nó. — Porque você merecia. — Muita gente merece. Você não sai por aí armando cavaleiros. — Não saio, não. Você foi a primeira. Ela ficou parada, com a fivela na mão. Ele finalmente olhou para ela, e havia no rosto dele uma coisa que Brienne não via com frequência: nenhuma ironia, nenhuma defesa. Só cansaço, e talvez medo, e outra coisa mais funda, que ela não ousou nomear. — Eu fui armado cavaleiro aos quinze anos — disse Jaime. — Por Sor Arthur Dayne, no meio de uma batalha contra a Irmandade da Mata do Rei. Ele era o homem que eu mais admirava no mundo. Eu achava que ser cavaleiro era isso: ser como ele. E depois passei o resto da vida descobrindo que os juramentos se contradizem, que você não consegue proteger o rei e o povo ao mesmo tempo, que as canções mentem. — Ele soltou o ar pelo nariz, meio riso, meio suspiro. — E aí apareceu uma mulher enorme e teimosa de Tarth que acreditava em tudo aquilo. Que cumpria cada promessa, mesmo as idiotas. Mesmo as que ela fez para mortos. — Lady Catelyn não era uma promessa idiota. — Não. Não era. — Ele baixou os olhos de novo. — Eu só queria que, se a gente morrer hoje, você morresse com o título. Você esperou a vida inteira por ele. Ninguém ia te dar. Então eu dei. Brienne não sabia o que fazer com as mãos. Pousou a sovela na mesa com cuidado, como se ela pudesse quebrar. — E você? — ela perguntou. — Se morrer hoje, morre como o quê? Jaime deu de ombros. — Regicida, provavelmente. É o que vão escrever. Se sobrar alguém para escrever. — Não é o que eu vou escrever. Ele riu, um riso curto e verdadeiro. — Você vai escrever? Pensei que fosse mais de espada que de pena. — Tem um livro. O Livro Branco, da Guarda Real. Cada Senhor Comandante escreve sobre os cavaleiros que vieram antes. Você me contou, em Porto Real. — Eu contei muita coisa em Porto Real. Estava bêbado em metade delas. — Não nessa. — Ela pegou a ombreira dos joelhos dele. A tira nova estava firme, o nó apertado, feio mas resistente. — Você disse que a sua página era pequena. Que tinha só fatos: armado cavaleiro, juramentado, matou o rei. Disse que não havia mais nada para escrever. Jaime ficou muito quieto. — Se a gente sobreviver — continuou Brienne, e a voz dela saiu mais baixa do que pretendia —, e se um dia esse livro voltar a ter dono, eu quero que alguém escreva o resto. Que ele pulou num fosso de urso por uma mulher que nem sabia lutar direito na época. Que voltou para Harrenhal sem explicar a ninguém por quê. Que me deu uma espada e uma missão. Que veio para o Norte sozinho, a cavalo, sabendo que ninguém aqui queria vê-lo. — Você sabia lutar muito bem na época — ele murmurou. — Eu só estava sem a mão. — Jaime. — Desculpe. Continue. Estava ficando bonito. Ela quase sorriu. Quase. Prendeu a ombreira no lugar e testou o movimento do braço. A fivela segurou. Lá fora, alguém gritou uma ordem, e o som de passos aumentou no pátio. As tochas das muralhas estavam sendo acesas uma por uma, e a luz laranja entrava pela porta do arsenal, estendendo as sombras dos dois no chão de pedra. Jaime se levantou. Estava de armadura também, uma armadura simples, sem o leão, sem o dourado da Guarda Real, emprestada de algum lorde do Norte que não precisava mais dela. A manopla da mão direita estava pendurada no cinto, solta. — Essa não vai ficar no lugar desse jeito — disse Brienne. — Ela nunca fica. Eu amarro como dá. — Me dá aqui. Ele hesitou. Por um segundo, ela pensou que ele fosse recusar, do mesmo jeito que ela tinha recusado mais cedo. Então ele soltou a manopla do cinto e estendeu o braço direito, com a mão dourada para frente. Brienne encaixou a manopla devagar sobre o metal. Prendeu as correias no pulso, uma, duas, três, apertando cada uma até ficar firme. Os dedos dela roçaram a pele do antebraço dele, logo acima do coto, onde o couro da manga terminava. Ele não se mexeu. Nem respirou, ela achou. — Pronto — ela disse. Mas não soltou o pulso dele. Ficaram assim, os dois de pé no arsenal, ela segurando o braço dele com as duas mãos. Brienne era mais alta, sempre tinha sido, e precisava baixar um pouco os olhos para encontrar os dele. Pela primeira vez em muito tempo, ela não se importou com isso. — Se a gente sobreviver... — Jaime começou. — Não. — Não? — Não faz promessa hoje. — Ela apertou o pulso dele uma vez, e soltou. — Eu cumpro todas as minhas. Não sei se aguento ver você quebrando uma. Ele a olhou por um longo momento. Depois fez algo que ela nunca tinha visto Jaime Lannister fazer: inclinou a cabeça, devagar, numa reverência curta, a reverência de um cavaleiro para outro. — Então vou só dizer que vou estar do seu lado direito — ele disse. — O lado em que eu não tenho mão. Vou precisar de alguém que cubra. — Eu cubro. — Eu sei. Você sempre cobre. As trompas soaram nas muralhas, três vezes, longas e graves. O pátio inteiro ficou em silêncio por um instante, e depois explodiu em movimento. Brienne pegou Cumpridora de Promessas da mesa. Aço valiriano, forjado a partir de Gelo, a espada de Ned Stark, derretida por ordem de Tywin Lannister. Jaime tinha posto aquela lâmina nas mãos dela numa manhã cinzenta em Porto Real, e ela nunca soube direito se aquilo tinha sido um presente ou um pedido de desculpas. Ela prendeu a espada no cinto. Jaime pegou a dele. Saíram juntos do arsenal, ombro com ombro, para dentro do frio. Ninguém olhou duas vezes para eles. Eram só mais dois cavaleiros indo para as muralhas, entre milhares de soldados, sob um céu sem vento. Mas Brienne olhou. Só uma vez, de lado, rápido, enquanto subiam a escada de pedra. Ele estava olhando para ela também. Nenhum dos dois disse nada. Não precisava.

Fim do que foi escrito

O que acontece depois é com você

Continue esta história de onde ela parou, ou reescreva do seu jeito.