Capítulo 1
O braço novo de Naruto não sabia dar nó. Ele descobriu isso às duas da manhã, sentado na beira da cama do hospital de Konoha, tentando amarrar a bandana ninja na testa pela décima quarta vez enquanto o resto da vila dormia.
A Vovó Tsunade tinha dito que levaria semanas. As células do Primeiro Hokage cresciam do jeito delas, sem pressa, e os nervos precisavam aprender um caminho que nunca tinham feito. O braço mexia, fechava o punho, segurava uma tigela de lámen se ele se concentrasse muito. Mas os dedos eram de outra pessoa. Grossos, lentos, enfaixados até o cotovelo, e quando Naruto tentava passar uma ponta do tecido por baixo da outra, o polegar escorregava e a bandana caía no colo dele outra vez.
— Merda — disse, baixinho, para ninguém.
— Está fazendo isso errado.
Naruto quase caiu da cama. Sasuke estava na janela. Não dentro do quarto, nem fora: sentado no parapeito, com uma perna para cada lado, a capa escura jogada sobre o ombro onde antes havia um braço. A lua batia de lado no rosto dele e deixava o olho do Rinnegan meio escondido pela franja.
— Faz quanto tempo que você está aí?
— O suficiente para contar até quatorze.
— Você podia ter batido.
— Na janela do terceiro andar?
Naruto abriu a boca para responder e não achou nada bom o bastante, então jogou a bandana nele. Sasuke pegou no ar, com a mão que sobrava, sem nem olhar.
Era a bandana de Sasuke. Naruto nunca tinha devolvido. Desde o Vale do Fim, a primeira vez, ele carregou aquele pedaço de pano e metal riscado no fundo da mochila, depois na gaveta do apartamento, depois de novo na mochila durante a guerra. O risco atravessava o símbolo da folha de ponta a ponta, marca do último golpe que trocaram naquela cachoeira, numa época em que os dois eram outras pessoas. Naruto tinha decidido que ia devolver quando Sasuke voltasse para casa. Só não esperava que ele voltasse para ir embora de novo.
Sasuke virou a bandana na mão, passou o polegar pelo risco.
— Você guardou isso.
— Guardei.
— Por quê?
— Porque era seu, idiota. — Naruto puxou as pernas para cima da cama e abraçou os joelhos com o braço bom. — Eu estava tentando amarrar pra ver se ainda dava. Pra amanhã.
Sasuke não respondeu. Amanhã ele ia embora. Todo mundo sabia: o Kakashi-sensei tinha assinado os papéis, a Sakura tinha chorado escondida no banheiro e depois fingido que era alergia, e o conselho da vila tinha concordado em retirar todas as acusações com a condição de que o último Uchiha passasse um tempo longe, viajando, vendo o mundo que quase destruiu. Sasuke disse que queria. Que precisava. Naruto acreditava nele, e mesmo assim tinha passado a semana inteira sem conseguir dormir direito.
— Você não precisa ir de madrugada que nem ladrão — disse Naruto. — Da última vez, deu no que deu.
— Eu não vou de madrugada. Vou de manhã, pelo portão principal. O Kakashi quer que me vejam sair.
— Então por que está aqui agora?
Sasuke ficou um tempo calado. Lá embaixo, um gato derrubou alguma coisa numa lixeira e saiu correndo pela rua.
— Porque de manhã vai ter gente demais — disse ele, por fim.
Naruto sentiu alguma coisa apertar no peito, num lugar que não tinha nada a ver com o braço.
Sasuke desceu do parapeito para dentro do quarto. Andou até a cama e parou ali, olhando para baixo, para o braço enfaixado. Naruto teve vontade de esconder, o que era ridículo. Sasuke também tinha perdido o braço dele na mesma pedra, no mesmo dia, um soco contra o outro, e não tinha aceitado prótese nenhuma. A Tsunade preparou um braço para ele também, das mesmas células. Sasuke recusou sem dar explicação, e Naruto achava que entendia, mas nunca perguntou.
— Mexe os dedos — disse Sasuke.
Naruto mexeu. Os dedos obedeceram com um segundo de atraso, um de cada vez, como alunos da Academia levantando a mão sem muita vontade.
— Está melhor do que ontem — disse Sasuke.
— Como você sabe como estava ontem?
Sasuke não respondeu, e Naruto entendeu que ele tinha passado por aquela janela mais de uma vez naquela semana. Talvez todas as noites. Ficou vermelho até as orelhas e torceu para a lua não ser forte o bastante para mostrar.
— Senta direito — disse Sasuke.
— O quê?
— Senta direito. De frente.
Naruto sentou na beira da cama, os pés no chão. Sasuke se agachou na frente dele, de modo que os olhos dos dois ficaram quase na mesma altura. Estendeu a bandana. Segurou uma ponta e deixou a outra pendurada.
— Pega.
Naruto pegou a outra ponta com a mão boa, a esquerda. Sasuke levou a bandana até a testa dele, o metal frio encostando na pele, e passou a ponta dele por trás da cabeça de Naruto. Os dedos dele roçaram o cabelo da nuca e Naruto parou de respirar por um momento, e depois achou que seria estranho demais parar de respirar, e voltou a respirar rápido demais.
— Você está fazendo barulho — disse Sasuke.
— Cala a boca.
As duas pontas se encontraram atrás da cabeça dele. Uma na mão de Sasuke, a direita, a única que restava. A outra na mão de Naruto, a esquerda, a que ele sempre teve.
— Cruza por baixo — disse Sasuke.
Naruto cruzou. Sasuke puxou. O primeiro nó saiu frouxo e torto, porque não dá para ver o que se faz atrás da cabeça de alguém, e porque nenhum dos dois tinha prática nisso. Naruto riu, um riso nervoso que balançou a bandana inteira.
— Fica parado.
— Eu estou parado!
— Você está rindo.
— Você também está!
Sasuke não estava rindo. Mas o canto da boca dele tinha se mexido um milímetro para cima, e Naruto conhecia aquele rosto há tempo demais para não reconhecer. Na segunda tentativa, foram mais devagar. Naruto passava a ponta por dentro, Sasuke segurava, Naruto puxava, Sasuke apertava. Era como fazer selos de mão a dois, cada um emprestando a mão que tinha, e de algum jeito funcionava.
Quando terminaram, a bandana estava firme na testa de Naruto. O risco do símbolo da folha bem no meio.
— Ficou feio — disse Sasuke.
— Ficou ótimo.
— O nó está torto.
— É o nosso nó torto.
Sasuke olhou para ele por um tempo longo. Depois levantou a mão e desfez o nó com dois puxões precisos, e a bandana escorregou pela testa de Naruto e caiu entre os dois.
— Ei! A gente tinha acabado de...
— Era só pra treinar — disse Sasuke. — De manhã você amarra em mim.
Naruto ficou olhando para a bandana no próprio colo.
— Você vai levar?
— Se você me der.
— E o risco?
Sasuke pegou a bandana outra vez, passou o polegar pelo metal arranhado. Durante muitos anos, aquele risco quis dizer que ele não pertencia a lugar nenhum. Naruto viu ele pensar nisso. Viu ele decidir.
— O risco fica — disse Sasuke. — Foi o caminho que eu fiz pra voltar.
Ficaram sentados ali até o céu começar a clarear do lado das cabeças dos Hokage na montanha. Não falaram muito. Naruto tentou amarrar a bandana sozinho mais uma vez, só para ver, e na décima quinta tentativa os dedos novos fizeram um nó de verdade, torto e frouxo, mas um nó. Sasuke viu e não disse nada, só apertou o ombro dele de leve com a mão que tinha.
De manhã, o portão principal estava cheio. A Sakura estava lá, os olhos inchados e o sorriso firme. O Kakashi, de chapéu de Hokage torto, fingindo ler um relatório. O Shikamaru bocejando. A Hinata segurando uma marmita embrulhada que ela achava que ninguém tinha percebido.
Sasuke parou na frente de Naruto. Abaixou um pouco a cabeça.
Naruto tirou a bandana do bolso. Passou pela testa de Sasuke, cruzou as pontas atrás da cabeça dele. Os dedos do braço novo tremeram, e ele achou que ia errar ali, na frente da vila inteira. Então a mão de Sasuke subiu até a própria nuca e segurou uma das pontas, de um jeito que ninguém mais conseguiu ver.
O nó saiu torto. Ficou perfeito.
— Volta — disse Naruto, baixinho.
— Eu sempre volto — disse Sasuke. — Você é que demora pra perceber.
E foi embora pela estrada, sem olhar para trás, com o risco da folha brilhando na testa contra o sol da manhã.