Não executar

Sherlock · fanfic · Slash · 2026

1 capítulo1.527 palavrasPT
Capítulo 1 de 1

Sobre a trama

John Watson encontra uma partitura escondida num tratado de venenos, dedicada a ele e marcada com uma ordem: não executar. Sherlock jura que é só um exercício de tédio.

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Mutual Pining (paixão mútua)Segunda chanceCenário canônicoLíricoVerdadePOV em terceira pessoa

Capítulo 1

A partitura estava escondida dentro do volume de venenos vegetais da estante de Sherlock, e isso, por si só, já era uma confissão. John Watson conhecia aquele apartamento bem o bastante para saber que Sherlock guardava as coisas importantes nos lugares onde ninguém em sã consciência procuraria, e que ninguém além de John jamais abriria um tratado de quatrocentas páginas sobre alcaloides às onze da noite de uma terça-feira. Ele só tinha aberto porque Rosie, que já dormia havia uma hora no quarto de cima, tinha perguntado mais cedo se a dedaleira era venenosa, depois de ver uma na floreira da senhora Hudson. John queria ter uma resposta melhor que "acho que sim" para o café da manhã. As folhas caíram no chão quando ele puxou o livro. Três páginas de papel pautado, dobradas ao meio, cobertas pela caligrafia estreita e inclinada que John reconheceria em qualquer lugar. No alto da primeira, a lápis, havia um título riscado tantas vezes que tinha virado um borrão cinza. Embaixo, mais legível, uma linha: "Para J. H. W. Não executar." John ficou um bom tempo agachado no tapete, segurando as folhas. Ele não sabia ler música. Nunca tinha aprendido, apesar de Harry ter tido aulas de piano por dois anos, na infância, antes de desistir. Mas sabia reconhecer uma valsa no papel, porque já tinha visto aquela forma uma vez: as notas agrupadas de três em três, a mesma letra miúda nas margens. Tinha visto na noite do casamento dele com Mary, quando Sherlock tocou para os dois e depois foi embora mais cedo, sozinho, de casaco e gola levantada, sem se despedir de ninguém. Aquela partitura era outra. A data no canto inferior da última página era de oito meses depois do casamento. Atrás dele, a porta do apartamento se abriu. — Você mexeu nos alcaloides — disse Sherlock, antes mesmo de tirar o cachecol. — O volume está dois centímetros mais para fora que os outros, e você está agachado de um jeito que sugere que derrubou alguma coisa e ficou com medo de... — Ele parou. Os olhos foram das mãos de John para as folhas, e das folhas para o rosto dele. — Ah. — Pois é — disse John. — Ah. Sherlock fechou a porta. Pendurou o casaco no gancho com uma precisão desnecessária, alisou a gola duas vezes, e só então se virou de novo. — Isso é antigo. — Está datado. — Eu sei que está datado, John, fui eu que datei. Estou dizendo que é antigo no sentido de irrelevante. Um exercício. Eu estava entediado. — Você estava entediado e escreveu uma valsa para mim. — Eu escrevo muitas coisas quando estou entediado. Escrevi uma monografia sobre os tipos de cinza de tabaco. Escrevi outra sobre a influência da profissão no formato das mãos. — E dedicou alguma delas a mim? Sherlock abriu a boca. Fechou de novo. John se levantou, devagar, porque o joelho já não era o mesmo e porque ele precisava de alguns segundos para organizar o que estava sentindo. Raiva não era. Surpresa também não, não exatamente. Era uma coisa mais antiga, uma suspeita que ele carregava havia anos e que nunca tinha tido coragem de olhar de frente. — "Não executar" — ele leu em voz alta. — Por quê? — Porque é ruim. — Mentira. — A modulação no segundo movimento é previsível e o final é sentimental demais. Qualquer pessoa com um mínimo de formação perceberia. — Eu não tenho formação nenhuma. Toca para mim. — Não. — Sherlock. — John, você está sendo absurdo. — Ele atravessou a sala, foi até a janela, olhou para a Baker Street lá embaixo como se a rua fosse oferecer uma saída. Um táxi passou. O letreiro do Speedy's piscava. — Você estava casado. Estava feliz. Ia ter uma filha. Eu tinha acabado de fazer um discurso diante de cento e vinte pessoas dizendo que você era o melhor homem que eu conhecia, e que eu nunca, em hipótese alguma, ia atrapalhar a sua vida. Aquilo — ele apontou para as folhas sem se virar — foi o que sobrou do discurso. As partes que eu não podia dizer. A sala ficou em silêncio. No andar de cima, Rosie se mexeu na cama, e os dois ficaram imóveis, esperando, até o barulho parar. John olhou para as partituras de novo. Pensou em todas as noites daqueles oito meses. Pensou em Sherlock aparecendo no apartamento deles com desculpas cada vez mais frágeis, um caso urgente, uma pergunta médica, uma cabeça humana que precisava de uma segunda opinião. Pensou em Sherlock indo embora sempre um pouco antes do jantar, mesmo quando Mary insistia que ele ficasse. Mary tinha percebido. Agora ele tinha certeza. Mary percebia tudo. — Ela sabia — ele disse. Sherlock se virou. — Mary? — Na gravação. A última, a que ela deixou para você. Ela disse uma coisa sobre nós dois que eu nunca entendi direito. Pediu que você cuidasse de mim, e depois falou de você como se... — John engoliu. — Como se soubesse de um segredo seu. Eu achava que ela estava falando dos casos. De você voltar a trabalhar. — Ela estava falando dos casos. — Ela nunca falava só de uma coisa. Sherlock não respondeu. Ficou parado perto da janela, com as mãos nos bolsos do roupão, que ele tinha vestido em algum momento sem que John percebesse. Parecia mais novo assim, mais magro, quase um estudante. Parecia o homem que John tinha conhecido no laboratório do Barts, tantos anos antes, que olhou para ele uma única vez e perguntou "Afeganistão ou Iraque?". John foi até a cadeira onde ficava o estojo do violino. Abriu, tirou o instrumento com um cuidado que tinha aprendido observando, e estendeu para Sherlock junto com as folhas. — Toca — ele disse de novo. Mais baixo, dessa vez. — Por favor. Não estou pedindo por ser ruim ou boa. Estou pedindo porque foi escrita para mim, e eu quero ouvir. Só isso. Por um longo momento, Sherlock não se moveu. Depois pegou o violino. Não pegou as folhas. — Eu sei de cor — explicou, quase com raiva, e encaixou o instrumento debaixo do queixo. A primeira nota foi tão baixa que John mal ouviu. A segunda ficou mais firme. E então a valsa começou de verdade, e não era nada parecida com a do casamento. A do casamento tinha sido luminosa, cheia de passos que subiam e giravam. Aquela era mais lenta. Era o tipo de música que se toca de madrugada numa sala vazia, depois que todos os convidados foram embora. Mas, no meio da melancolia, havia uma frase pequena que voltava de tempos em tempos, três notas subindo, sempre as mesmas, como alguém que bate à porta e vai embora antes que alguém atenda. John fechou os olhos e deixou a música tomar a sala. Quando terminou, Sherlock baixou o arco e ficou olhando para o chão. — A modulação do segundo movimento é mesmo previsível — disse John. Sherlock ergueu a cabeça, ofendido, e John riu, e a risada desfez alguma coisa que estava presa no peito dos dois havia muito tempo. — Estou brincando. Eu nem sei o que é modulação. — É quando a música muda de tonalidade. Eu poderia explicar com mais detalhes, se você... — Sherlock. — Sim? — Aquelas três notas. As que ficam voltando. Sherlock hesitou. — São você — ele disse, finalmente. — São o som da sua bengala na escada, na primeira noite. Você subiu dezessete degraus e parou no décimo segundo para respirar. Toc, toc, toc. Depois nunca mais precisou da bengala. Mas eu me lembro do som. John sentiu os olhos arderem e não fez questão de esconder. Ele atravessou a sala. Tirou o violino das mãos de Sherlock com o mesmo cuidado com que tinha tirado do estojo e o pousou na poltrona. Depois ficou ali, a meio passo, perto o bastante para sentir o cheiro de chuva e de nicotina velha no roupão dele. — Toca de novo — John disse. — Agora? — Amanhã. E depois de amanhã. Eu quero aprender a reconhecer. Sherlock olhou para ele como olhava para uma cena de crime nova, com aquela fome total de quem quer entender cada detalhe. Mas havia outra coisa no rosto dele também, algo que John já tinha visto uma ou duas vezes, sempre de relance, sempre logo antes de Sherlock se lembrar de esconder. Dessa vez ele não escondeu. — Ainda tem uma terceira página — disse Sherlock, a voz baixa. — Que eu não terminei. Faltava um final. John pegou as folhas do chão e as colocou com cuidado sobre a lareira, ao lado do crânio, encostadas no espelho, onde os dois podiam ver. — Então termina — ele disse. — Eu não vou a lugar nenhum. Lá fora, a chuva começou a cair na Baker Street. No andar de cima, Rosie dormia. E pela primeira vez em muitos anos, Sherlock Holmes não teve nada inteligente a dizer. Só pegou na mão de John, desajeitado, como quem segura pela primeira vez um instrumento desconhecido, e ficou.

Fim do que foi escrito

O que acontece depois é com você

Continue esta história de onde ela parou, ou reescreva do seu jeito.